Ou como o sal na dieta nos vai fazer ficar seriamente doentes, falecer e ainda roubar todo o nosso dinheiro da poupança e todo o património de uma vida… 😉

 

Logo a seguir ao medo da gordura na Dieta… esse papão que vai fazer disparar o colesterol, engordar-nos e rebentar o coração no peito… o medo do sal é dos MITOS mais difundidos e que ainda se mantém como “verdade” universalmente aceite.

Se vos disser que há pelo menos cinco anos, que diversos estudos sérios mostraram evidências em como demasiada restrição de sal aumenta a mortalidade, inclusive nos hipertensos…

Sal

Em 2013 o próprio CDC (Centro de Controle de Doenças) dos Estados Unidos, publicou artigos, na sequência da análise de vários estudos, que referiam que as directrizes publicadas sobre o consumo de sal, estavam erradas!

Existe uma tendência para maior consumo de sal e essa tendência vem do consumo de alimentos processados, com conteúdo de sal insuspeito, inclusivé em produtos que não nos fariam sentido conter sal (o caso dos refrigerantes, por exemplo). A conjugação de sal e açúcar, em quantidades cuidadosamente controladas pela indústria, têm efeitos na palatabilidade dos alimentos (palatabilidade significa «saboroso ou aprazível ao paladar»), e visa ainda inibir a hormona da saciedade (adiando a acção da leptina, o nosso interruptor de off e que é “enganada” pelos alimentos processados). Já falei precisamente nessa questão aqui

Nos alimentos processados, frequentemente o sabor perde-se no processamento e tem de ser posteriormente reintroduzido. Para tal são adicionados sabores artificiais, intensificadores de sabor, entre os quais sal e açúcar em grande quantidade. Se fosse apenas introduzido sal em maior quantidade, iríamos achar demasiado salgado e rejeitar o alimento. Mas quando se combina sal e açúcar, um cancela o efeito do outro e ambos realçam o sabor do alimento… (quantos de nós não misturávamos algumas pipocas salgadas nas pipocas doces, para ter precisamente esse efeito de realce…) 😉

Já em 2011, foi publicada no “American Journal of Hypertension”, uma meta-análise de sete estudos envolvendo um total de 6250 pessoas e em que não foi encontrada nenhuma evidência significativa de que eliminar o sal tenha efeitos na redução do risco de ataques cardíacos, derrames ou morte, tanto em indivíduos normotensos (com pressão arterial normal) ou hipertensos.

Nesse mesmo ano, investigadores europeus, publicam no “Journal of the American Medical Association (JAMA)”, conclusões que salientam que quanto MENOS sódio as pessoas excretavam na urina (uma excelente referência do seu consumo de sal) – MAIOR era o seu risco de morrer do coração.

O resultado de diversos estudos sobre o tema sugerem que, integrado numa alimentação baseada em “alimentos verdadeiros”, em tudo à semelhança da Dieta Paleo / Primal / Ancestral, com acentuada redução de alimentos processados, é perfeitamente aceitável basear o consumo de sal no gosto pessoal do indivíduo, sem receios infundados de sal em excesso.

O cloreto de sódio, mais conhecido como o nosso “sal de cozinha”, é dos mais preciosos alimentos. As nossas células dependem de sal, uma vez que este é um importante controlador de substâncias que entram e saem nas células. Uma ingestão de sal de pelo menos 6 a 8 gr por dia, garantem um equilíbrio ideal dos nutrientes e de água nas células. Na quantidade adequada, o sal aumenta os movimentos peristálticos dos intestinos, contribuindo para uma boa digestão, facilita a produção de energia, auxilia o funcionamento renal, além de ser essencial a quem pratica mais de uma hora de actividade física, pois ajuda a repor o sódio perdido pela transpiração.

E o que levou à difusão internacional geral de mais esse MITO NUTRICIONAL e a dietas de sacrifício, sem sabor, levados pelo medo da pressão arterial elevada? O culpado, pra não variar, foi o Mickey! Sim… mais uma vez, estudos com ratos (que não há dúvida têm uma fisiologia extremamente parecida com a humana e deve ser por isso que são tantas vezes utilizados para tirar conclusões sobre a dieta humana…) e as suas conclusões, levaram a brilhantes postulados e directrizes que afectam a nossa alimentação e saúde, desde há décadas…

 

O Mito do Sal

Assim, desde a década de 70, retirámos gradualmente o sal das nossas dietas, porque um senhor de nome Lewis Dahl, conseguiu a proeza de induzir pressão alta em ratos alimentando-os com o que equivaleria a meio quilo de sódio por dia

para um ser humano. Será de estranhar que ratos, que habitualmente não têm grandes fontes de sal na sua dieta, expostos a essa quantidade de sal, manifestassem

esse tipo de sintomas? E fazer uma analogia directa a seres humanos?

Estima-se que aos dias de hoje, um americano médio consuma cerca de 3,4g de sódio, ou 8,5g de s

al, por dia. O estudo foi feito com uma quantidade equivalente a meio quilo por dia… tem tudo a ver! Dahl baseou-se nesse estudo e em comparações com dados demográficos e populacionais…a título de exemplo ele relacionou um maior consumo de sal no Japão, com uma maior prevalência nessa altura, de pressão arterial elevada e derrames… acontece que anos depois, um artigo publicado por outros investigadores no “American Journal of Hypertension” relata que estes não conseguiram comprovar essa associação entre o consumo de sal e hipertensão, uma vez que ao comparar, dentro da mesmo população (japonesa), pessoas com maior e menor consumo de sal, chegaram à conclusão que sim, que se consumia bastante sal no Japão e que existia bastante hipertensão, mas as pessoas que consumiam mais sal não tinham maior índice de incidência do que as que consumiam menos sal…

No entanto, graças a esses “estudos” e aos artigos e discussões gerados desde a década de 70, não obstante todos os estudos e evidências contraditórias publicadas antes e depois… o MITO PERSISTE!

Façamos no entanto aqui um parêntese… existe efectivamente um subgrupo de pessoas hipertensas que são apelidadas de “salt sensitive” (sensíveis ao sal). Trata-se de um subgrupo que em cenário de restrição de sal, se verifica efectivamente uma queda nos valores de pressão arterial. Para esse grupo específico (essa sensibilidade pode ser apurada medindo regularmente a pressão durante uma experiência de uma a duas semanas. Numa semana pratica uma maior restrição de sal e em outra semana utiliza o sal à vontade… depois compara resultados… 😉

Em jeito de conclusão deixem-me acrescentar que a menos que já seja hipertenso e pertença ao subgrupo de indivíduos com sensibilidade ao sal, o incremento do sal NÃO implica efeitos negativos na pressão arterial. A maioria de estudos científicos sérios identifica como maior culpado de problemas de tensão, um outro cristal branco…. conseguem adivinhar qual?! BINGO… o AÇÚCAR!! 😀

Uma meta-análise de ensaios clínicos, aleatórios e controlados, incluindo apenas estudos com pelo menos oito ou mais semanas de duração, concluiu-se que ELEVADO CONSUMO DE AÇÚCAR aumenta significativamente a pressão sistólica em +6.9 mm Hg (p<0.0001) e diastólica em +5.6 mm Hg (p=0.0005).

Mais interessante ainda é que quando excluímos dessa meta-análise os estudos patrocionados pela indústria açucareira, os números resultam ainda mais expressivos: aumento médio de +7.6 mm Hg na pressão sistólica, e +6.1 mm Hg diastólica.

Sublinhar ainda que parte das maiores cefaleias (dores de cabeça) e enxaquecas de que sofremos, frequentemente advém da restrição de sal. Uma das mais comuns causas de dor-de-cabeça é justamente o desequilíbrio eletrolítico provocado ou ampliado por falta de sódio!

Mais fontes de informação:

Mathers CD, Loncar D (2006) Projections of Global Mortality and Burden of Disease from 2002 to 2030. PLoS Med 3(11): e442. doi:10.1371/journal.pmed.0030442  (Full Text)

Intersalt: an international study of electrolyte excretion and blood pressure. Results for 24 hour urinary sodium and potassium excretion. Intersalt Cooperative Research Group. BMJ. 1988;297(6644):319-28.  (Full Text)

Dinicolantonio JJ, Lucan SC. The wrong white crystals: not salt but sugar as aetiological in hypertension and cardiometabolic disease. Open Heart. 2014;1(1):e000167. (Full Text)

 

Ainda sobre os MITOS DA NUTRIÇÃO que apesar de todas as evidências teimam em permanecer, irredutíveis e inclusivé reforçados por conselhos de médicos e nutricionistas desactualizados… deixo-vos com as palavras de um médico brasileiro que muito admiro pela sua jornada de esclarecimento e destruição de mitos nutricionais (um médico que também ele foi mais tarde desperto para os profundos erros nutricionais, difundidos como lugares comuns e “verdades absolutas”:

“Na área da nutrição, existe um fenômeno estranho: uma imunidade às evidências. Existem diretrizes que já deveriam estar sepultadas, assim como o que era divulgado na época em que se achava que cigarro não fazia mal e que se usavam medicamentos que hoje não se usam mais. As coisas mudam muito na ciência da saúde, mas na nutrição não! As diretrizes que já foram absolutamente superadas no que diz respeito ao consumo de gordura e consumo de carboidratos permanecem sendo utilizadas por profissionais hoje em dia. A única explicação é que o pessoal não está vendo as revistas médicas e não domina o inglês – não consigo ver outra explicação para isso.”

Dr. José Carlos Souto,

Médico urologista, formado em 1993 pela UFRGS, com pós-graduação em patologia experimental na FFFCMPA e nos EUA

 

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