Paleo vs Veganos: Estudos… ou factores de confusão e algumas razões pelas quais tantos estudos nutricionais são falíveis à partida e condenados a conclusões marcadamente tendenciosas…

Quando adoptamos um caminho de reeducação alimentar e passamos de uma Dieta “convencional” ocidental para uma Dieta mais “natural”, seja Paleo / Primal, Vegetariana ou mesmo Vegana, existe uma tendência natural para o “fundamentalismo”. Queremos passar do “péssimo” para o “perfeito” e estamos frequentemente condicionados por uma ideia de que não nos devemos contentar com menos que o “óptimo”!

Convenhamos… a grande mudança na vida e na saúde das pessoas – e até na aparência, com perda de peso, melhor pele, etc… – que adoptam esse tipo de dietas, tem mais a ver com o deixar de consumir alimentos altamente processados e aditivados, do que propriamente com os benefícios de uma dieta fundamentalista.

Também quando adoptamos uma orientação de Dieta Ancestral, Paleo / Primal, temos tendência a focar-nos no ideal, nas opções perfeitas e por vezes demonizamos o “menos perfeito”. A título de exemplo assistimos à absoluta condenação de carne de produção extensiva e à utilização de salmão “não selvagem”. Por vezes gera-se autênticas discussões nos Grupos Paleo acerca da legitimidade dessas opções, dessas escolhas.

Fundamentalismo na nutrição é causa de tantos mitos que perduram até hoje…

Os vegetarianos / veganos, na sua estratégia de promoção da sua dieta, têm tendência a associar os inegáveis benefícios obtidos, simplesmente com o facto de retirarem a carne da sua dieta. Fazendo isso aparentemente “esquecem” ou subestimam o facto de os seus “seguidores” regra geral não só abandonam os piores alimentos processados, como adoptam frequentemente outras medidas de estilo de vida mais salutar. Todos esses factores (estilo de vida) promovem efeitos benéficos na nossa saúde, muito para além dos proporcionados pela alimentação.

Para além das orientações dietéticas, Vegetarianos e sobretudo Veganos são tradicionalmente mais focados na substituição de produtos industrializados por outros mais naturais e ecológicos – e com isso refiro-me a produtos não alimentares, como detergentes, shampôs, sabonetes, pastas de dentes e uma miríade de outros produtos que têm efeitos tóxicos no nosso organismo… também são (e isso é de louvar) habitualmente defensores de uma vida mais centrada na natureza e adopção de práticas mais saudáveis, como o deixar de fumar, prática de exercício físico, Yoga e meditação…

Todas essas alterações de estilo de vida se traduzem em benefícios que em nada estão associados às opções de nutrição e muito menos com o “abolir” de um determinado tipo de alimento (neste caso a proteína animal).

Em estudos que alegadamente compararam grupos vegetarianos / veganos (e que não foram ensaios clínicos aleatórios e com grupos controle, os tais “sérios”…), com populações em que não se restringia consumo de carnes vermelhas e produtos animais, conseguiram em alguns casos “extrair” dados que apontavam vantagens em seguir esse tipo de dietas vegetais.

Estudos: Paleo & Veganos

Estudos Prospectivos e variáveis de confusão…

É importante sublinhar no entanto, que esses estudos se tratavam fundamentalmente de estudos prospectivos / observacionais. O tipo de estudos que se baseia em dados estatísticos, demográficos ou de questionários. Já falei sobre a importância de saber distinguir níveis de evidência, em outro artigo…) Quase todos esses estudos foram levados a cabo há várias décadas, numa época em que a carne e a gordura animal eram “demonizadas” e quase toda a comunidade médica e nutricional recomendava reduzir ou evitar carnes vermelhas e apontava o dedo à gordura como causadora de problemas cardiovasculares. E o que quer isto dizer? Que estavam a comparar um tipo de grupo representativo de pessoas saudáveis, que opta por uma alimentação excluindo a maioria dos processados, que acredita na prática de exercício físico, em deixar de fumar, não consumir bebidas alcoolicas ou fazê-lo com moderação e optar por outras práticas mais saudáveis… com um grupo de “rebeldes” que ia declaradamente contra a maioria das opiniões e recomendações de saúde vigente – consumir carne vermelha, gordura animal , etc…

O consumo de carne vermelha e outros produtos animais, em épocas em que a generalidade das recomendações era contrária, constitui um marcador de inconformismo e rebeldia – o que basicamente significa fazer uma comparação com pessoas que também não teriam certamente outras preocupações de saúde, que provavelmente fumavam, praticavam pouco ou nenhum exercício físico e quem sabe até corriam outro tipo de riscos… será de admirar que os “desfechos” na comparação desses grupos poderiam trazer alguma vantagem para o primeiro (e atenção que as diferenças, mesmo assim são pouco significativas)?!

Essas variáveis de diferenciação, dificilmente quantificáveis e que são extremamente frequentes em estudos prospectivos / epidemiológicos e baseados em questionários, são as chamadas “variáveis ou factores de confusão”… e a principal razão pela qual esses estudos são tão sujeitos a falhas. A manipulação dos dados estatísticos permitem a publicação de resultados como (“encontrada relevante / significativa relação entre os nativos de Leão, na população de São Francisco e a incidência de casos de fibromialgia… logo, ser do signo Leão é um factor de risco para fibromialgia…). Isto não é simplesmente ficção, é tratamento de dados, feito de forma tão legítima como a que se traduz nalguns dos resultados desses estudos, sendo a contínua adopção deste tipo de estudos pela área da nutrição, tendo sido já objecto de duras críticas, mas continua a ser prática corrente.

Financiamento de estudos…

Também o financiamento de estudos pela indústria, sendo que estudos recentes também apontam percentagem de mais de 80% de resultados favoráveis às indústrias patrocinadoras, nos estudos financiados por estas… e não se trata de suborno ou de “compra” de resultado, trata-se frequentemente de influenciar o desenho do estudo (a forma como se pergunta pode condicionar a resposta), do facto de frequentemente o tratamento estatístico final dos dados ficar a cargo de alguém ligado à indústria, ou simplesmente o receio dos investigadores de que se esgotem futuros financiamentos…

Se atentarem aos benefícios / abordagens positivas que associo às opções de vida de vegetarianismo / veganismo, perceberão que por princípio não tenho nada contra quem deseje seguir essas opções como “orientação de vida”. As suas opções dietéticas não serão o que considero a melhor forma de “optimização” de nutrição e saúde, mas cada um é livre de escolher como quer viver a sua vida… 😉 Sou 120% a favor de liberdade de escolhas e pela liberdade de expressão. Tenho no entanto um reduzidíssimo nível de tolerância para deliberada manipulação de dados e informação. Cada qual pode defender a sua “dama”, com honestidade, abertura ao diálogo, sem fundamentalismos e encarando a discussão de ideias como pedagógica e enriquecedora. Devem sempre basear as suas afirmações / premissas em argumentos sólidos, com a base científica mais clara e objectiva possível.

Seria ainda desejável não confundirmos posições ideológicas, filosóficas ou morais, com fisiologia, metabolismo ou factos de adaptação nutricional. Respeito completamente a defesa de Veganismo assente nestes princípios, mas desprezo absolutamente a sua defesa com argumentos de ser uma dieta para a qual estamos evolutivamente adaptados e ou optimizados. Isso é um absurdo não científico!

Recentemente voltou a falar-se de mais um mito, o de que uma dieta vegetariana / vegana se traduziria numa maior longevidade / esperança média de vida. De tempos a tempos a media volta a difundir essa falácia. E em que se baseia essa afirmação? Fundamentalmente em alguns estudos tendenciosos  comparando “bananas com maçãs” 😉 E que quer isso dizer? Que foram comparados grupos de pessoas tendencionalmente mais saudáveis (como expliquei acima) com grupos de pessoas que representam um grupo “de risco”, os não conformistas, os que “desobedecem” às directrizes vigentes, tendencionalmente fumam e não seguem recomendações saudáveis…

Paleo & Veganos: Estudos

O Oxford Vegetarians Study

O Oxford Vegetarians Study foi um estudo de coorte prospectivo de 11.045 indivíduos do Reino Unido, recrutados entre 1980 e 1984. Os investigadores recrutaram vegetarianos inicialmente através da Sociedade Vegetariana do Reino Unido. Num segundo momento, pediram aos vegetarianos que convidassem amigos e parentes que consumissem produtos de origem animal, com a suposição de que os amigos omnívoros de vegetarianos provavelmente seriam mais saudáveis do que a população geral de omnívoros.

Tal como no Health Food Shoppers Study, um estudo norte-americano que tentou também dessa forma limitar os “factores de confusão”, tanto os vegetarianos como os omnívoros preocupados com a saúde, tinham menor risco de morte prematura do que a população em geral, mas não existiram diferenças no tempo de vida entre os dois grupos.

Estudo de Heidelberg

O Heidelberg Study foi um estudo de coorte prospectivo de 1.904 indivíduos na Alemanha recrutados entre 1976 e 1999. Foi utilizado um método semelhante de recrutamento de participantes, semelhante ao utilizado no Oxford Vegetarian Study e ao EPIC-Oxford Cohort: os participantes foram recrutados a partir de leitores de revistas vegetarianas alemãs usando um curto questionário, sendo que os vegetarianos que concordaram em participar foram incentivados a convidar familiares que consumiam carne.

Este estudo descobriu que os vegetarianos tinham uma mortalidade total ligeiramente maior (10 por cento) do que os omnívoros saudáveis. Além disso, os dados sugeriram que fatores não-dietéticos tiveram um papel muito maior na previsão do tempo de vida, do que propriamente a dieta.

O 45 and Up Australian Study

O 45 and Up Study é um estudo longitudinal que acompanhou 243.096 participantes em New South Wales, na Austrália, durante seis anos. No início, os vegetarianos no estudo foram:

   … mais jovens, menos propensos a estar acima do peso ou obesos, mais propensos a serem do sexo feminino e menos propensos a ter doenças cardiovasculares e metabólicas (incluindo diabetes tipo 2, doença cardíaca ou acidente vascular cerebral) e hipertensão no momento do recrutamento. Eles também foram mais propensos a ter comportamentos de estilo de vida saudável, como uma menor prevalência de tabagismo e consumo de álcool de risco.

Como já expliquei anteriormente, essas diferenças significativas de estilo de vida entre os vegetarianos e os omnívoros no estudo introduzem um enorme potencial para o viés do “participante saudável”. No entanto, os autores do estudo estavam cientes disso e mencionaram as deficiências de pesquisas anteriores (como os estudos SDA) a esse respeito:

   Primeiro, a maioria desses estudos foi planeada para recrutar vegetarianos ou ocorreu em populações com maiores proporções de vegetarianos (como os adventistas, que podem naturalmente imcluir outros fatores de estilo de vida e comportamentos de melhoria da saúde, responsáveis ​​pelos efeitos protetores observados), portanto os resultados anteriores podem ter uma generalização algo limitada. Em segundo lugar, os vegetarianos costumam ter um estilo de vida mais saudável em comparação com os não vegetarianos, salientando-se uma menor prevalência de tabagismo e consumo excessivo de álcool (Key et al., 2009) e níveis mais altos de atividade física (Bedford e Barr, 2005). ). Portanto, os efeitos protetores observados podem ser devidos a outros comportamentos concorrentes, que não a dieta….

Essa consciência do alto risco de viés na pesquisa nutricional observacional, terá sido o que provavelmente os levou a prestar muito mais atenção aos fatores de confusão do que outros estudos similares. Eles controlaram idade, sexo, educação, estado civil, afastamento geográfico, SEIFA (Índice Sócio-Econômico para Área, uma medida ecológica de desvantagem socioeconômica baseada em censos…), tabagismo, atividade física, ingestão de álcool e comorbidades, incluindo cancro, hipertensão e doenças cardiometabólicas, que inclui diabetes tipo 2, acidente vascular cerebral e doença cardíaca.

Embora isso não elimine completamente o “preconceito de usuário saudável”, pelo menos procura reduzi-lo. Quais foram os resultados? Não foram identificadas diferenças significativas na mortalidade total entre vegetarianos e omnívoros. Também não houve diferença na mortalidade entre vegetarianos, pesco-vegetarianos e semivegetarianos.

Esse achado é especialmente notável porque o estudo teve um tamanho de amostra tão grande (cerca de 250.000 participantes). Como o vegetarianismo é relativamente raro, um tamanho de amostra grande com um número suficiente de vegetarianos e diferentes variações de dietas vegetarianas, torna os resultados mais prováveis ​​de serem precisos.

Foram ainda promovidas duas meta-análises (revisões abrangentes) de estudos individuais comparando a mortalidade em vegetarianos e omnívoros, incluindo todos os estudos discutidos acima. Qualquer uma delas não encontrou diferença na mortalidade total entre vegetarianos e omnívoros.

O primeiro foi feito em 2014. Não foi encontrada diferença na mortalidade total entre vegetarianos / veganos e onívoros.

Além disso, concluiu-se que qualquer benefício observado em análises anteriores de dietas vegetarianas teria sido impulsionado pelos estudos SDA (Promovidos pela Igreja Adventista, que promove vegetarianismo), que, sofrem de múltiplos factores de confusão que não foram adequadamente controlados. Em vista desses resultados inconsistentes, essas meta-análises concluiram que os benefícios de dietas vegetariana para redução de morte e eventos cardiovasculares ainda não foram comprovados.

Os autores dessa meta-análise sugeriram várias possibilidades para justificar o porquê dos estudos SDA terem mostrado uma diferença na mortalidade, enquanto que outros estudos não. A dieta SDA é caracterizada por uma maior ingestão de frutas e vegetais, em comparação com omnívoros comuns, e frequentadores regulares de igrejas adventistas têm maior probabilidade de se abster de fumar, ter boas práticas de saúde e permanecer casados (factores que contribuem para a longevidade em outros estudos). Além disso, eles são aconselhados a descansar o suficiente, exercitar-se regularmente e manter relacionamentos saudáveis. Todas essas diferenças explicam por que as descobertas dos estudos da SDA não são generalizáveis para a população em geral.

A segunda meta-análise foi publicada em 2017 e fez a revisão de 96 estudos. Embora tenham encontrado reduções relativamente discretas em mortes por doenças cardíacas e cancro em vegetarianos e veganos em comparação com omnívoros, eles não encontraram diferença na mortalidade total.

Esses estudos também sugeriram que praticamente todos os estudos que afirmam encontrar benefícios para a saúde de uma dieta vegetariana são altamente sujeitos ao “viés do participante saudável”.

De fato, em geral, os vegetarianos tendem a ser mais conscientes para os aspectos de saúde, mais esguios e com melhor saúde, quando comparados aos omnívoros, e coortes específicas demonstraram não ser generalizáveis para a população geral, devido à baixa prevalência de fatores de risco (Kwok). et al., 2014). Esses resultados podem indicar a presença de falhas na análise de possíveis benefícios à saúde da dieta vegetariana.”

Esses estudos persistem em comparar “bananas com maças”… comparar vegetarianos a populações que sigam a “SAD” (Standard American Diet), uma dieta que como sabemos tem tudo menos bases saudáveis tem esse “efeito”.

Em jeito de Conclusão:

  • Enquanto o vegetariano médio pode viver mais do que um “omnívoro SAD”, não há evidências de que eles vivam mais do que os omnívoros mais preocupados com a saúde.
  • Estudos mostrando benefícios das dietas vegetarianas para a saúde, são altamente susceptíveis ao viés do “participante saudável”, e suas descobertas não são generalizáveis para a população em geral.
  • Fatores relacionados a dieta e estilo de vida, como exercício fisíco, consumo de álcool, tabagismo, IMC, sono e consumo de frutas e vegetais, desempenham um importante papel na previsão do tempo de vida, independentemente de se consumir carne ou produtos animais.

Também é importante notar que ainda não temos um estudo que compare uma população saudável que consuma carne e outros produtos de origem animal, menos produtos processados e mais frutas e vegetais (uma população Paleo por exemplo) com vegetarianos e vegans. Embora os métodos usados nos estudos mencionados  acima, que de alguma forma tentaram comparar “maçãs com maçãs”, sejam melhores do que os estudos SDA e a maioria dos estudos observacionais, eles estão longe de serem perfeitos.

Para tentar comprovar essa influência do estilo de vida na saúde, foram efectuados estudos com outras populações, não vegetarianas mas que igualmente mantém práticas de vida mais saudáveis, semelhantes aos Adventistas. Três estudos que tiveram como participantes populações mórmons, tiveram comclusões muito semelhantes aos estudos SAR.

Na “causa” Vegetariana / Vegan, infelizmente é frequente recorrer-se a estudos prospectivos, epidemiológicos, baseados em questionários e/ou interpretação de estatísticas para “manipular resultados” e que comparam “bananas com maças”. Para além disso procuram ocultar todas as referências a estudos e ensaios clínicos que não “defendem” os seus príncipios. Essa é uma posição que me faz profunda “comichão”… que me desculpem os mais sensíveis…

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