Óleos Vegetais industrializados. Um “veneno” moderno?

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óleos vegetais industrializadosÉ do conhecimento comum, informação “básica” para todos os que praticam estas opções de “Dieta” Primal / Paleo, que os óleos vegetais, extraídos de sementes, altamente processados e refinados, não são de todo uma boa opção. Sabemos que o seu consumo regular tem diversos efeitos negativos, mas concretamente quais?

Neste artigo vou tentar partilhar mais alguma informação sobre esses óleos vegetais industrializados e tentar inclusive incidir algumas “luzes” sobre o porquê de terem sido tão divulgados como opções “saudáveis” e até “amigos” do coração…

Breve história dos óleos vegetais industrializados

Como aconteceu com diversos outros produtos alimentares do mundo ocidental, a utilização de óleos vegetais industrializados na alimentação é produto da industria alimentar americana. No entanto, diversos óleos vegetais que hoje em dia se utilizam, começaram por ser fabricados com objectivos e funções completamente distintos do alimentar. A título de exemplo, o óleo de semente de algodão foi durante muito tempo utilizado para iluminação. Com a descoberta de veios ricos de petróleo (cerca de 1870), acabou sendo completamente substituído nessa funçãoa, sendo a partir daí considerado como “desperdício / excedente tóxico”. É nessa altura que dois fabricantes de velas e sabão, de nome William Procter e James Gamble (o nome Procter & Gamble não será certamente desconhecido para a maioria), fazem diversas experiências na tentativa de substituir a banha (que se tornara mais dispendiosa) no fabrico de sabão. Várias dessas experiências incidem na utilização de sub-productos muito menos dispendiosos, como óleos vegetais. Curiosamente o primeiro sabonete de origem vegetal foi uma mistura de óleo de palma e coco, tendo criado o primeiro sabão que flutuava na água (uma invenção muito prática quando roupas e pratos eram lavados em bacias).

Foi efectivamente um sub-producto / resíduo da cultura do algodão, o óleo de semente de algodão, que começou a ser produzido em massa, para satisfazer a crescente procura no mercado de produção de sabão. É no sentido de garantir um suprimento constante e barato para a produção de sabão, que a Procter & Gamble formou uma subsidiária em 1902 chamada Buckeye Cotton Oil Co.

óleos vegetais industrializados - diversos

Novas perspectivas surgiram quando se descobre (em 1907) que através um processo químico designado por “hidrogenação”, o óleo pode ser quimicamente alterado de forma a ser  transformado em uma gordura sólida, semelhante a banha e que poderia ser assim também utilizada na cozinha (vulgarizado mais tarde como “margarina”). A Procter & Gamble adquiriu os direitos da patente desse processo, para utilização nos Estados Unidos e rapidamente produz em laboratório uma substancia alternativa para a banha na cozinha (que designamos actualmente como óleo vegetal hidrogenado).

Sobre a evolução da utilização do óleo de semente de algodão, um artigo da época da famosa revista “Popular Science“, resume assim: O que era lixo em 1860 foi fertilizante em 1870, alimentação de gado em 1880 e comida de mesa e muitas outras coisas em 1890″

Em 1910, a Procter & Gamble registou um pedido de patente para a sua nova “invenção”, descrevendo-a como “um produto alimentar que consiste em um óleo vegetal, de preferência óleo de semente de algodão, parcialmente hidrogenado e endurecido a um semi-sólido branco ou amarelado homogéneo que se assemelha à banha. O objetivo especial da invenção é fornecer um novo produto alimentar para reduzir o tempo de cozedura”. É assim introduzido no mercado americano o famoso óleo Crisco.

óleos vegetais industrializados -  CRISCO

Influências de uma futura indústria multimilionária…

Nunca antes a Procter & Gamble – ou qualquer outra empresa – tinha destinado tanto apoio de marketing ou investimento em publicidade a um produto. Contrataram a J. Walter Thompson Agency, a primeira “agência de publicidade de serviços completos” da América, composta por artistas (ilustradores / pintores) e escritores profissionais. Amostras de Crisco foram enviadas para mercearias, restaurantes, nutricionistas e profissionais dedicados à economias doméstica.
Oito estratégias de marketing alternativas foram testadas em diferentes cidades e os seus impactos foram calculados e comparados.
Donuts eram fritos em Crisco e distribuídos nas ruas.
As mulheres que compravam a nova gordura industrial recebiam um livro de receitas gratuito, de receitas utilizando Crisco. Esse livro começava com a frase “O mundo da culinária está em plena revisão de todo o seu reportório de receitas, devido ao advento do Crisco, uma nova e completamente diferente gordura de cozinha“. Receitas para sopa de aspargos, salmão assado com molho Colbert, beterraba recheada, caril de couve-flor e sandes de tomate, que requeriam três a quatro colheres de sopa de Crisco.

As alegações de saúde nas embalagens de alimentos não estavam então minimamente regulamentadas e os redactores puderam livremente alegar que o óleo de algodão era mais saudável do que as gorduras animais, para a própria digestão. Anúncios no “Ladies Home Journal” incentivavam as donas de casa a experimentar a nova gordura e a “perceber por que a sua descoberta afectará todas as famílias da América”. O lançamento sem precedentes do produto resultou nas vendas de cerca de 3,5 milhões de dólares de Crisco em 1912 e cerca de 70 milhões de dólares apenas quatro anos depois.

óleos vegetais industrializados - Publicidade Crisco

Essa substância (e muitos dos seus imitadores que entretanto surgiram) tinha 50% de “gordura trans”, e foi somente na década de 90 que os seus riscos para a saúde foram compreendidos e divulgados. Estima-se que, para cada aumento de 2% no consumo de gordura trans (ainda encontradas em muitos alimentos processados e “fast-food”), o risco de doença cardíaca aumente em 23%. Por mais surpreendente que isso possa parecer para alguns, o facto de as gorduras animais apresentarem o mesmo risco não é suportado pela ciência.

Rapidamente outros óleos vegetais se seguiram. A soja foi introduzida nos Estados Unidos na década de 1930 e logo na década de 1950, tornou-se o óleo vegetal mais popular no país. Os óleos de canola, milho e açafrão seguiram-se logo após. O baixo custo desses óleos culinários, combinado com o marketing estratégico por parte dos fabricantes de óleo, tornou-os muito populares nas cozinhas americanas, não obstante o seu uso não tivesse até então precedentes na história da humanidade.

E sobre o processo de fabrico?

O processo geral utilizado para criar óleos industriais de sementes é tudo menos natural. Os óleos extraídos da soja, milho, semente de algodão, sementes de açafrão e colza devem ser refinados, branqueados e desodorizados antes de serem adequados ao consumo humano.

  • Após a sua colheita, as sementes são aquecidas a temperaturas extremamente altas (isso provoca que os ácidos gordos insaturados nas sementes oxidem, criando subprodutos prejudiciais à saúde humana e animal).
  • As sementes são então processadas com um solvente à base de petróleo, como o hexano, para maximizar a quantidade de óleo extraído.
  • Em seguida, os fabricantes industriais usam produtos químicos para “desodorizar” os óleos, com vista a retirar-lhes o cheiro muito desagradável que têm depois de extraídos. O processo de desodorização produz gorduras trans, que são conhecidas por serem bastante prejudiciais à saúde humana.
  • Finalmente, mais produtos químicos são adicionados para melhorar a cor dos óleos de sementes industriais.

No seu geral, o processamento industrial de óleos de semente cria um óleo denso em energia e pobre em nutrientes, que contém resíduos químicos, gorduras trans e subprodutos oxidados. Como isso pode ser um alimento saudável?

E sobre as alegações de saudáveis para o coração?

No final da década de 1940, um pequeno grupo de cardiologistas, membros da recém criada Associação Americana do Coração (American Hearth Association), recebeu uma doação de 1,5 milhão de dólares da Procter & Gamble. Graças a essa generosa infusão de dinheiro dos fabricantes de Crisco, a AHA tinha agora financiamento suficiente para aumentar o seu perfil nacional como organização médica dedicada à saúde do coração.
Nos anos seguintes, a AHA viria a endossar óleos de sementes industriais, mais conhecidos como “óleos vegetais”, como sendo uma alternativa mais saudável às gorduras animais tradicionais. Coincidência?

Também nessa época, a hipótese lipídica ou “diet-heart hypothesis” de Ancel Keys, viria a vulgarizar o pensamento de que uma maior ingestão de gordura em geral, e de gorduras saturadas em particular, seria o principal factor causador de doenças cardiovasculares. Várias considerações, experiências e estudos observacionais “manipulados” levaram ao Mito da Gordura Saturada como causador da epidemia cardiovascular. Neste artigo tento simplificar a história dessa falácia, apontando os seus pontos altos…

Em resumo, Ancel Keys, um ambicioso e carismático investigador apresentou a sua “hipótese de dieta lipídica“, na qual divulgava dados que pareciam sugerir uma ligação entre gordura saturada e ingestão de colesterol, com o aumento das doenças cardíacas. Como as gorduras animais são uma rica fonte de gordura saturada e colesterol na dieta, elas rapidamente se tornaram objeto de critica e repúdio. Citando as gorduras animais como “não saudáveis”, Keys recomendou em alternativa o consumo de ácidos gordos poliinsaturados (PUFAs), visto que pesquisas preliminares associavam a reduções no colesterol e no risco de doenças cardíacas. As conclusões de Keys estavam assim alinhadas com os interesses da indústria de óleos de sementes industriais – que seria convencer as pessoas a consumir mais óleos de sementes.

Rapidamente se tornaram comuns os anúncios de margarina “saudável para o coração” (a tal forma sólida de óleo vegetal) e as gorduras tradicionais saudáveis foram praticamente esquecidas (manteiga, banha, etc…).

Apesar de que hoje temos plena noção de que as “hipóteses” de Keys se baseiam e foram contaminadas por pesquisas com sérias falhas e manipulação de alguns resultados (como refiro brevemente no artigo acima), as suas ideias ainda permeiam e influenciam a comunidade médica.

óleos vegetais industrializados - Maleficios

Mas há quem os questione?

Apenas recentemente foi seriamente posta em causa, a validade das alegações de melhor saúde associadas ao consumo de óleos de sementes industriais. Uma meta-análise de 2014 não encontrou nenhum benefício para a saúde em geral, com a redução de gorduras saturadas e/ou o aumento de PUFAs a partir de óleos vegetais. Além disso, as evidências cientificas de todo não apoiam as directrizes alimentares actuais, que instigam as pessoas a substituir gorduras saturadas por óleos vegetais. Abaixo dois estudos que claramente o referem:

Dietary Guidelines for Americans Shouldn’t Place Limits on Total Fat
Evidence from randomised controlled trials did not support the introduction of dietary fat guidelines in 1977 and 1983: a systematic review and meta-analysis
Effects on Coronary Heart Disease of Increasing Polyunsaturated Fat in Place of Saturated Fat: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials

Seis principais problemas dos óleos de sementes industriais

  1. O consumo de óleos de sementes industriais representa uma incompatibilidade evolutiva (não adaptada à nossa biologia ancestral).
  2. A sua ingestão aumenta desfavorávelmente as nossas proporções de ácidos gordos ômega-6 e ômega-3, com consequências significativas para a nossa saúde (ver artigo).
  3. São instáveis e oxidam facilmente (idem).
  4. Contêm aditivos prejudiciais.
  5. São maioritáriamente derivados de culturas geneticamente modificadas.
  6. Quando são aquecidos repetidamente, são criados subprodutos ainda mais tóxicos.

Sobre instabilidade e oxidação…

Os ácidos gordos poliinsaturados presentes nos óleos de sementes industriais são altamente instáveis e oxidam facilmente com a exposição ao calor, luz e substâncias químicas. Quando os óleos de sementes industriais são expostos a esses fatores, duas substâncias nocivas (gorduras trans e peróxidos lipídicos) – são criadas. As gorduras trans são bem conhecidas pelo seu papel no desenvolvimento de doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2; de facto, por cada aumento de 2% nas calorias obtidas por gorduras trans, o risco de doenças cardíacas aumenta para quase o dobro (ver artigo)!
Os peróxidos lipídicos, por outro lado, são subprodutos tóxicos que danificam o DNA, proteínas e lipídios da membrana em todo o corpo. O acúmulo de peróxidos lipídicos no organismo promove o envelhecimento e o desenvolvimento de doenças crônicas.

Sobre a reutilização e reaquecimento…

Como se os óleos de sementes industriais já não fossem maus o suficiente para a nossa saúde, a tendência de reutilizar os óleos vegetais industriais, aquecendo-o repetidamente nas frituras, tem o efeito de ampliar ainda mais os seus efeitos nocivos. Esse hábito (geralmente em grandes fritadeiras, no caso de restaurantes) tem efeitos na redução de custos, mas resulta num óleo repleto de subprodutos tóxicos.

O aquecimento repetido desses óleos esgota a vitamina E, um antioxidante natural, ao mesmo tempo que induz a formação de radicais livres que causam “stress oxidativo” e danificam DNA, proteínas e lipídios em todo o corpo. São esses efeitos nocivos que estão na origem da associação da reutilização de óleos a situações de pressão alta, doenças cardíacas e danos intestinais e hepáticos. Ver artigo, artigo e artigo

O consumo de óleos industriais vegetais de sementes está hoje associado, segundo diversas evidências científicas, a doenças como:

óleos vegetais industrializados - Omega 6 e 3

PS: Vários dos artigos, testes e ensaios que cito acima não são Ensaios Clínicos Aleatorizados (o mais alto nível de evidência científica). Não o sendo não podem ser considerados prova de causa e efeito, mas todos têm a legitimidade, pelas suas metodologias de apresentarem hipóteses, teorias a serem validadas por ensaios clínicos aleatorizados….

Alternativas aos óleos industriais vegetais de sementes

Excelentes e saudáveis alternativas serão a utilização de gorduras naturais, minimamente processadas, que já os nossos avós usavam, tais como:

  • Azeite Extra Virgem:
  • Oléo de Coco;
  • Manteiga e Ghee;
  • Banha
  • Sebo
  • Gordura de pato

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