Há várias décadas que “crescemos” a ouvir que o consumo de carne vermelha, ou no mínimo o excesso de consumo de carne vermelha seria prejudicial à nossa saúde.

Inicialmente as “acusações” eram focadas no conteúdo em gordura saturada, sendo esta associada a um “inevitável” aumento do risco de incidentes cardiovasculares. Esse continua a ser ainda o principal  argumento contra o consumo de carne vermelha, sendo que a este, a “criatividade” crescente veio adicionar risco de cancros, preocupações ambientais (estas muito em voga, hoje em dia…), entre outros dramáticos argumentos utilizados no sentido de entusiastas recomendações para a alteração das nossas dietas para uma dieta “à base de plantas (“Plant Based“). Ver este artigo sobre a “Dieta Planetária”

Na verdade, todas essas recomendações e directrizes alimentares, “penalizando” o consumo de carne vermelha e recomendando a sua redução extrema “por questões de saúde”, não tinham qualquer fundamentação cientificamente rigorosa. Recentemente (dia 1 de Outubro de 2019) foi publicado numa prestigiada publicação norte-americana “Annals of Internal Medicine“, a mais recente revisão sistemática de estudos já publicados sobre o tema, reflecte o trabalho de 3 anos, de 14 investigadores em 7 países. Essa revisão focou-se ainda em 5 meta-análises (o conjunto de estudos abordados incluiu 12 ensaios clínicos controlados e aleatorizados, cujos resultados constituem um elevadíssimo nível de evidência e podem ser usados para estabelecer relações de “causa e efeito”), tendo chegado à conclusão que no que diz respeito à carne vermelha não processada, existe um índice de evidência baixo ou muito baixo, de que a redução do consumo de carne vermelha tenha quaisquer efeitos no risco cardio-metabólico, cancro ou mortalidade por quaisquer causas. Ver conclusões do estudo Red and Processed Meat Consumption and Risk for All-Cause Mortality and Cardiometabolic Outcomes: A Systematic Review and Meta-analysis of Cohort Studies:

É realmente importante chamar a atenção para essa dissonãncia, sobretudo para o facto de que conclusões tão “polémicas” como essa, mesmo que assentes em evidências tão fortes e dificeis de contestar, não tenham tido o mesmo “eco” na comunicação social, a par do extraordinário destaque que dão a qualquer pseudo-estudo, fraco de evidência, que de alguma forma “ataque” o consumo de carne vermelha e/ou gordura saturada.

Existe uma tão grande “desinformação nutricional“, que perdura há tantas décadas e que torna muito díficil o “quebrar” de mitos e crenças erradas. Nesse sentido, esta recente revisão sistemática, vindo sugerir que afinal o consumo quer de carne vermelha “fresca”, quer de versões processadas, afinal “não seria assim  tão mau”…veio constituir uma “pedrada no charco” da comunidade de investigação nutricional. Os defensores de uma nutrição mais “convencional”, cada vez mais “plant based“, apressaram-se a expressar quer profunda indignação, quer exigências de retratação desta publicação (recordo que esta foi baseada em 3 anos de trabalho e análises de outros estudos com elevado nível de evidências…). Houve quem exigisse que a “U.S. Food and Drug Administration” se envolvesse contra um artigo que se atreve a dizer que as evidências que ligam o consumo de carne vermelha a doença são, na melhor das hipóteses, fracas ou muito fracas.

…tendo chegado à conclusão que no que diz respeito à carne vermelha não processada, existe um índice de evidência baixo ou muito baixo, de que a redução do consumo de carne vermelha tenha quaisquer efeitos no risco cardio-metabólico, cancro ou mortalidade por quaisquer causas.

Esta preocupação em atacar estas conclusões naturalmente assentam na defesa de dogmas estabelecidos há décadas, em carreiras académicas e profissionais que defendem conceitos cada vez mais reconhecidos como mitos.

DIrectrizes Alimentares

A propósito… As directrizes alimentares contemporâneas recomendam limitar o consumo de carne vermelha não processada e carne processada. Por exemplo, as Directrizes Dietéticas para 2015-2020 para os americanos recomendam limitar a ingestão de carne vermelha, incluindo carne processada, a aproximadamente 1 porção semanal. Da mesma forma, as directrizes alimentares do Reino Unido endossam a limitação da ingestão de carne vermelha e processada a 70 g/ dia, e o Fundo Mundial de Pesquisa do Câncer / Instituto Americano de Pesquisa do Câncer recomenda limitar o consumo de carne vermelha a quantidades moderadas e consumir muito pouco carne processada. A Agência Internacional para Pesquisa do Câncer da Organização Mundial da Saúde indicou que o consumo de carne vermelha é “provavelmente cancerígeno” para os seres humanos, enquanto a carne processada é considerada “cancerígena” para os seres humanos.

No entanto, essas recomendações são baseadas principalmente em estudos observacionais com alto risco de confusão e, portanto, limitados no estabelecimento de inferências causais, nem relatam a magnitude absoluta de quaisquer efeitos possíveis. Além disso, as organizações que produzem diretrizes não conduziram nem acessaram rigorosas revisões sistemáticas das evidências, foram limitadas no tratamento de conflitos de interesses e não abordaram explicitamente os valores e preferências da população, levantando questões sobre a aderência aos padrões das dircetrizes de confiabilidade.

Sobre essas pretensas associações de consumo a carne vermelha a cancro, os autores desta revisão sistemática, apresentam algumas conclusões em Reduction of Red and Processed Meat Intake and Cancer Mortality and Incidence: A Systematic Review and Meta-analysis of Cohort Studies

Em “ciência” nutricional recorre-se na maioria das vezes a estudos observacionais,  baseados em coortes, geralmente prospectivos e baseados sobretudo na análise de questionários. As características desses estudos impõem que os mesmos deveriam servir apenas para levantamento de hipóteses, de teorias que teriam de ser posteriormente confirmadas por estudos de caso, (ECA) Ensaios Controlados e Aleatorizados, com grupos controle, participantes escolhidos aleatóriamente e condições controladas. Infelizmente esses estudos são caros, com logistícas complexas e difíceis de obter financiamento. Para cada ECA, existem cemtenas de Estudos Observacionais, frequentemente baseados em novas análises estatísticas de enormes bases de dados de informação, recolhida em questionários. De vez em quando um novo grupo “descobre” novas associações “estatisticamente relevantes”, simplesmente cruzando novas variáveis. A possibilidade de manipular todas essas variáveis, recolhidas em extensos questionários (todos os que já preenchemos questionários com mais de 3 páginas, com múltiplas e exaustivas opçóes, variantes da mesma pergunta, pensadas para reduzir erros e acasos, sabe o espirito com que começamos a responder após a 10ª ou 15ª questão…) levam a conclusões frequentemente “distorcidas”. Também é comum que se parta para a pesquisa de uma forma inversa: Tenho uma hipótese, uma teoria e vou procurar o conjunto de dados cuja manipulação se “encaixe” no que quero publicar…

Todas essas lacunas de fiabilidade levaram inclusive um grupo de investigadores a publicar um estudo que, baseado em dados estatísticos igualmente relevantes, apontavam que na vasta coorte estudada, os nativos de Leão seriam mais susceptíveis a hemorragia gastrointestinal, enquanto os nativos de sagitário apresentaram maior probabilidade de fractura do úmero, em comparação com a combinação de todos os outros signos. Podem ver esse estudo publicado aqui: Tratou-se evidentemente de um estudo publicado para ridicularizar e pôr em causa a credibilidade de estudos epidemiológicos, baseados em análise de coortes.

Para entender melhor os diversos níveis de evidência dos estudos científicos frequentemente citados em notícias sobre nutrição, e assim melhor poder distinguir as conclusões realmente assentes em evidências credíveis, recomendo a leitura deste artigo.

O que são Coortes / Estudos e pesquisas de Coortes by Wikipedia

A pesquisa de coorte é definida como uma forma de pesquisa observacional, longitudinal e analítica que objetiva estabelecer um nexo causal entre os eventos a que o grupo foi exposto e o desfecho da saúde final dessas pessoas. A pesquisa de coorte pode ser prospectiva ou retrospectiva.

Na pesquisa de coorte prospectiva um grupo de pessoas que compartilham uma característica ou experiência comum (por exemplo, nasceram no mesmo ano e local, são vacinados, expostos ao mesmo poluente, tomam a mesma droga ou foram submetidos a um mesmo procedimento médico) são acompanhados por um período significativo de tempo (geralmente de 1 a 5 anos). O grupo de comparação pode ser a população geral com características similar a estudada, mas que não compartilharam essa experiência ou pode ser um outro grupo de pessoas locais que provavelmente tiveram pouca ou nenhuma exposição à substância ou evento sob investigação, mas de outra forma similar. Alternativamente, os sub-grupos do grupo podem ser comparados uns com os outros.

Vantagens e desvantagens de estudos de coorte

A principal vantagem do estudo de coorte é ser a única possibilidade ética de investigação do impacto em humanos de poluentes, desastres, eventos históricos, abuso de substâncias e crises. Não seria ético simular doenças potencialmente fatais, desastres ou intoxicar humanos em laboratório. Além disso tem as vantagens de poder descobrir e analisar factores importantes que seriam perdidas ao tentar isolar em um laboratório.

No entanto, estudos de coorte são caros (apesar de consideravelmente menos que os ECA) para conduzir, são sensíveis a viés e erros sistemáticos e demoram um longo tempo de acompanhamento para gerar dados úteis. Outra desvantagem é a dificuldade em separar os grupos afectados e não afectados com precisão em casos, de pessoas que faleceram, de descobrir doenças prévias desconhecidas e quando ocorre imigração constante desse local após o evento a ser estudado.

Ainda sobre o estudo que me inspirou a escrever este artigo, deixo-vos um comentário sobre o estudo, pelo Dr. Dennis Bier, Professor of Pediatrics and Director of the Children’s Nutrition Research Center, do Baylor College of Medicine:

“As regras da prova científica são as mesmas para a física e para a nutrição”. Mas, ao contrário das experiências em física, onde os investigadores podem controlar as variáveis e determinar a causalidade, em nutrição, “você não pode realizar a experiência”.

Esta é uma referência ao facto de que os números envolvidos nas relações de causa / efeito observados em muitos estudos epidemiológicos de nutrição, são tão pequenos que seriam completamente ignorados em qualquer campo científico que não seja o da nutrição. Ver as referências a risco relativo tão utilizado para sublinhar essas associações, ao invés da utilização de risco absoluto. conceito muito mais realista e objectivo, conforme refiro neste artigo.

Ainda sobre as Directrizes Nutricionais, o Dr. Bier também comenta:

“As directrizes [de nutrição] são baseadas em documentos que presumivelmente dizem que há evidências do que eles dizem. E não existe. Essa é a história da nutrição.
“As pessoas devem estar cientes da incerteza e tomar suas decisões com base nessa consciencialização.”

Deixo igualmente um artigo muito interessante publicado no New York Times, logo a seguir à publicação das conclusões desse estudo: Eat Less Red Meat, Scientists Said. Now Some Believe That Was Bad Advice. (Coma menos carne vermelha, disseram os cientistas. Agora, alguns acreditam que isso foi um mau conselho).  O sub-título diz “The evidence is too weak to justify telling individuals to eat less beef and pork, according to new research. The findings “erode public trust,” critics said.” (As evidências são demasiado fracas para justificar que as pessoas comam menos carne bovina e suína, de acordo com uma nova pesquisa. Os resultados “minam a confiança do público”, disseram os críticos.

Contrariando alguns argumentos que associam o consumo de carne a um péssimo desfecho ambiental, deixo-vos dois bons videos rectificando alguma da “ciência” sobre o impacto ambiental do consumo de carne…

Deixo-vos ainda a tradução de um excelente artigo que contraria de forma brilhante os argumentos contra o consumo de carne e a favor de uma Dieta “Plant Based” / à base de plantas…

SÃO OS CARROS, NÃO AS VACAS

De PAUL JOHN SCOTT | 07 Julho 2019

Artigo Original publicado no Minnesota Star Tribune, original aqui:

As pessoas tendem a sentir-se estranhas a respeito de carne, mesmo que sem motivo aparente. Como Michael Pollan disse, “coma comida, não muito, principalmente plantas.” Soava bem, de alguma forma.

Na realidade, o argumento para evitar alimentos de origem animal nunca foi forte. Quando se trata de saúde, o caso contra a carne é quase exclusivamente derivado de uma metodologia científica conhecida como epidemiologia nutricional, um fraco substituto para a verdadeira ciência experimental. Embora chegue ao noticiário como um evangelho, esses estudos que tipicamente mostram que ovos, manteiga ou carne bovina promovem doenças, quase sempre dependem de questionários e das lembranças não verificáveis dos participantes, participantes estes que, frequentemente, fornecem respostas incorrectas, em busca da aprovação dos seus entrevistadores. Além disso, o resultado final de um estudo epidemiológico é capaz de mostras apenas associações, e NÃO PODE estabelecer relações de causa e efeito.

Mas vocês não perceberiam isso tendo em conta a confiança com a qual, desde há cinco décadas, fomos direccionados para o “bufett” de saladas.

Tampouco grandes ensaios clínicos aleatórios confirmaram o senso comum de que uma “maioria de plantas”, ou mesmo de que a chamada dieta mediterrânea leva a melhores resultados de saúde. Pelo contrário, é bastante desafiador tentar substituir completamente a alta densidade nutricional dos produtos minimamente processados de origem animal pelas frutas, legumes e grãos integrais do nosso suposto futuro dietético.

Carnes, ovos e lacticínios são inquestionavelmente superiores aos hidratos de carbono refinados e óleos vegetais que estão no centro da dieta americana padrão. Mas depois de um longo período culpando o talhante, esses detalhes inconvenientes sobre alimentos de origem animal permanecem pouco conhecidos, e é seguro dizer que a maioria dos americanos acredita que é mais saudável comer menos carne.

Vocês podem pensar nisso como nosso grande “ponto cego” vegetariano, que nos deixou indefesos contra a escalada da cruzada contra a carne: a notável afirmação de que comer carne é mau para o planeta. Um grande exagero! Antigamente, comer carne era considerado apenas mau para as artérias de uma pessoa, mas agora devemos fazê-lo com a vergonha de que isso seria negativo para toda a vida na Terra.

Suponho que alguém tenha que dar crédito a eles (veganos e vegetarianos) por aumentar as críticas em torno do bife, mas era realmente necessário que isso acontecesse? Somente um monstro negaria aos seguidores das dietas vegetarianas e veganas a rectidão moral que lhes é devida. Escolher comer apenas plantas ou “principalmente plantas”, como Pollan colocou, é, naturalmente, uma escolha pessoal legítima, totalmente admirável, por razões ética ao menos – por parte dos adultos que nisso consentem.

Mas a campanha em andamento para forçar o mundo a desistir de alimentos de origem animal por meio da vergonha em nome do aquecimento global é pura projecção vegetariana, uma mistura “low-calorie” de fatos e suposições. Ela “apanha boleia” em nossa ansiedade sobre o aumento das marés, deslocando o medo dos gases do efeito estufa para um medo infundado da carne.

A apropriação vegetariana da crise climática é imprudente. A mudança climática exigirá nossa atenção concentrada, sacrifício colectivo e coragem política sem precedentes. Mudanças transformadoras e dissruptivas serão necessárias para fazer os combustíveis fósseis reflectirem seus custos ao meio ambiente e, em seguida, transformar a sociedade para 100% de energia renovável. Isso já será doloroso o suficiente sem lutar contra a percepção de que o activismo alimentar pode ter sequestrado a agenda ambiental.
• • •

A “segunda-feira sem carne” tem reivindicado o argumento do carbono por um tempo, mas 2019 foi o ano em que Wall Street colocou uma recomendação de “compra” no tópico. Nos últimos meses, testemunhamos o aumento dos stok’s dos fabricantes de hambúrgueres como Beyond Meat (22 ingredientes, US $ 240 milhões arrecadados, Nasdaq: BYND) e Impossible Foods (21 ingredientes, US $ 300 milhões arrecadados, de capital fechado). Ambos colocam mensagens sobre o clima no topo de suas vendas. Insectos comestíveis e “leites” feitos de amêndoas, soja e aveia foram todos financiados com foco nas preferências ambientalistas dos consumidores. Sem mencionar o ângulo climático, a Cargill já começou a cultivar carne em laboratório.

Então, vem a EAT Lancet, uma iniciativa global lançada em janeiro passado para propor uma dieta vegetariana planetária, quase vegana, que promete uma “transformação radical do sistema alimentar global”. A campanha, financiada por uma bilionária vegana da Escandinávia e pelo Wellcome Trust, uma organização filantrópica com laços familiares com a Igreja Adventista do Sétimo Dia (vegetariana), cujo autor principal foi o nutricionista de Harvard Walt Willet, um antigo “semeador” de ansiedades sobre carne, e influente chefe da política federal de nutrição (americana).

Outro co-autor do EAT Lancet, o cientista ambiental da Universidade de Minnesota, David Tilman, vem promovendo uma mensagem relacionando carne com o clima, desde pelo menos 2014. Foi quando, em uma publicação amplamente citada pela revista Nature, ele e um co-autor ganharam ampla atenção pelo artigo “Dietas Globais Conectam Sustentabilidade Ambiental e Saúde Humana”, um documento que vende os mesmos vínculos não comprovados de carne com doenças crônicas e ainda oferece uma assustadora série de cálculos para provar que os gases do efeito estufa estarão controlados até 2050 se todos concordarem em comer “a média entre as dietas mediterrânea, “piscitariana” e vegetariana ”. Foi uma extraordinária matemática…

Para uma campanha de matiz ambientalista, o EAT Lancet tem o apoio de alguns companheiros bem estranhos. Os co-patrocinadores incluem os fabricantes de produtos químicos Dupont, o gigante de tecnologia Google, a gigante de contabilidade Deloitte, o gigante de Relações Públicas Edelman, 13 outras empresas químicas e 27 fabricantes de alimentos e medicamentos, incluindo os vendedores de hidratos de carbono refinados Kellogg’s, Nestlé e PepsiCo e os gigantes dos óleos vegetais processado Cargill e Unilever. O que, alguém poderia perguntar, poderia persuadir esses motores do capitalismo a defender o fechamento de cada casa de carnes, bar de ostras e churrascaria?

Talvez a dieta da EAT Lancet nos dê algumas pistas. Da forma que foi imaginada, a dieta supostamente de baixa emissão de carbono que irá prolongar a saúde de amanhã é um prato pós-apocalíptico cheio de celulose, com apenas alguns gramas de carne por mês. Um paraíso anedónico, ele acaba com tudo que é sensorial sobre comida e ainda consegue incluir um pouco de fraude climática no processo, misturando estes alimentos básicos com frutas e legumes importados em aviões a jato.

Embora não fique claro como, sob o plano do EAT Lancet, devemos comer porções abundantes dos chamados PUFAs (ácidos graxos poliinsaturados), óleos industrializados de sementes que mantêm unidos os ingredientes da maioria das formas de alimentos processados, incluindo – surpresa! – substitutos de carne.

Mas os PUFAs são a coisa mais distante do natural. Como Nina Teicholz relatou em “Gordura Sem Medo” , estes substitutos de baixa qualidade para o sebo, banha e manteiga formam partículas oxidadas quando aquecidos, que requerem a compra, por parte das cozinhas industriais, de produtos de limpeza especiais para remover sólidos endurecidos de fritadeiras e roupas de trabalhadores de fast-food. Eles provavelmente deveriam ter permanecido restritos ao seu uso original, a lubrificação de máquinas.

A dieta EAT Lancet, sem surpresa, também é nutricionalmente deficiente. Segundo uma análise de Zoe Harcombe, pesquisadora com doutorado em nutrição em saúde pública, os adeptos ficariam deficientes em vitamina B12, vitamina D, retinol, sódio, potássio, cálcio e ferro. A dieta é uma vitória, no entanto, para qualquer fabricante capaz de colocar um V em sua embalagem. Por isso, os patrocínios.
***
O gado contribui para a mudança climática. Eles arrotam metano, um gás de efeito estufa. Os ruminantes têm um segundo estômago para a digestão de plantas fibrosas, quebrando a vegetação que não podemos digerir através do caminho anaeróbio e, assim, expelindo metano.

Embora mais potente que o CO2 na captura de calor, o metano é de duração relativamente curta na atmosfera. O metano também é expelido pela Mãe Natureza através de cupins, que, como o gado, também precisam digerir a celulose. O pântano, outro digestor natural de celulose (e uma reserva de biodiversidade), é uma das maiores fontes naturais de metano do planeta. Fontes humanas de metano incluem aterros sanitários, campos de petróleo e, numa reviravolta inesperada, uma prática agrícola que provavelmente aumentará exponencialmente se uma utopia vegana se tornar real: plantações de arroz.

A outra emissão directa por bovinos vem do esterco, que libera tanto o metano quanto o óxido nitroso, outro gás de feito estufa. Mas precisamos de esterco no ciclo de carbono dos ruminantes, um sistema regenerativo que remove carbono do ar ao longo do tempo, formando solo novo.

Funciona assim: ao pastar, o gado deposita estrume e urina no solo (reciclando a água que bebe), que são então pressionados pelos cascos no solo, fertilizando o sistema de raízes profundas das gramas dos pastos. Essas plantas gramíneas, vegetação que os humanos não conseguem comer, crescem em terras que os humanos não podem cultivar, retiram o CO2 do ar, sequestrando o carbono. Dessa forma, o gado alimentado de pasto é positivo para o clima— eles retiram mais carbono do ar do que liberam.

Com excepção das operações de confinamentos, que concentram o esterco de maneira não natural, tanto o arroto quanto o esterco de ruminantes estão connosco há milénios. Estima-se que 80 milhões de búfalos selvagens já cobriram as Grandes Planícies. Esses números quase equivalem aos 90 milhões de bovinos de corte vivos nos EUA hoje, dos quais 75 milhões estão localizados em campos a qualquer momento. No final do Pleistoceno Superior, acredita-se que 150 espécies de mega-fauna tenham existido nas Américas, incluindo mamutes lanosos, grandes felinos, preguiças-gigantes e ursos grandes. Cálculos de regressão sugerem que as emissões desses herbívoros super-dimensionados teriam criado níveis de metano próximos aos emitidos hoje pelo gado doméstico.

Assim, nossa atmosfera mostrou-se capaz de lidar com os arrotos e os dejectos do reino animal, assim como com o metano liberado pelos cupins e pântanos. Se esse metano não fosse expelido pelo gado, teria sido libertado quando a erva não consumida começasse a apodrecer. Fontes verdadeiramente artificiais de metano – aterros sanitários, condicionadores de ar, arrozais agrícolas e, a um nível extraordinário, vazamentos na cadeia de produção de gás natural – são assuntos urgentes de preocupação para o combate às mudanças climáticas. Estima-se que vazamentos de gás devido ao “fracking”(fracturamento hidráulico para a exploração do gás natural), por exemplo, liberem desastrosos 13 Tg (teragramas) de metano a cada ano. Isso é o dobro do metano liberado a cada ano pelas vacas. O EAT Lancet deveria estar nos pressionando para renunciar ao gás de fogão e ao arroz. Mas isso não favoreceria o avanço do imperativo vegetariano.
• • •

Há, é claro, custos climáticos indirectos do gado, e esses perfazem a maior parte da culpa que agora está sendo colocada na carne. As vacas são culpadas por tudo, desde a libertação de CO2 por camiões envolvidos no transporte de carne, até as chaminés de fábricas de embalagem, o carbono liberado pelo cultivo de terras para alimentação, incluindo a prática desastrosa de derrubar florestas (que armazenam CO2) para torná-las terras cultiváveis nos países em desenvolvimento. Esses argumentos surgiram já nos primeiros artigos culpando as vacas, e rapidamente levantaram dúvidas.

O problema começou em 2006, quando a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) relatou que 18% dos gases do efeito estufa eram devidos à pecuária, uma soma maior do que todo o sector de transporte. Mas a FAO acabaria por ajustar este valor para baixo (para 14,5%) depois que ficou claro que havia essencialmente comparado as emissões directas e indirectas de vacas apenas às emissões directas de carros. A FAO ainda não tem nenhum valor de comparação para os custos climáticos indirectos dos carros, sem dúvida porque o número é impossível calcular.

Quando você se foca nas emissões passíveis de serem calculadas, directas, a carga climática do gado cai dramaticamente. A EPA estima que 9% de todas as emissões directas nos EUA são devidas à agricultura, em comparação com 20% da indústria, 28% da electricidade e 28% do transporte. Apenas 3,9% são devidos ao gado. Isso é metade do CO2 atribuível ao concreto.

“Pecuária e Mudanças Climáticas”, um relatório acusando o gado, de 2009, pelo World Watch Institute, ficou famoso ao afirmar que a carne era responsável por 51% dos gases do efeito estufa, um número repetido no documentário da Netflix “Cowspiracy“. Mas a World Watch registrou não apenas o arroto de vacas e as lavouras destinadas a ração, mas até o próprio CO2 exalado pelo gado, gases que são, é claro, re-inalados. Eles basicamente penalizavam o gado por respirar. O que é estranho para uma organização de sustentabilidade, mas apenas marginalmente mais do que penalizar o gado por digerir. “A pecuária”, seus autores racionalizaram, “é uma invenção e conveniência humana (como o automóvel), e não parte dos tempos pré-humanos”.
Digam isso a Buffalo Bill…
• • •

A mudança climática é assustadora. Todos nós queremos fazer algo, e a tentação de combiná-lo com o que ingerimos ao jantar é forte. Oferece um sentimento de sucesso muito mais imediato do que o confuso negócio de mudanças políticas.
E seria bom, vocês sabem, unir saúde e activismo ambiental ao mesmo tempo, depois ir ao ginásio e à lavandaria. Bastaria mudarmos para as tortas de feijão, as temperaturas parariam de subir, e todo o trabalho estaria feito.

Mas o feijão não é uma proteína completa. Você precisa adicionar-lhe arroz. Arroz, a maior fonte de metano em toda a agricultura. E aquela soja no hambúrguer vegetal? É necessário fertilizante, que libera óxido nitroso, que é 300 vezes mais potente que o CO2.

Para muitos americanos da Geração Z, agora com cerca de 7 a 22 anos de idade… eles querem marcas de alimentos autênticas e transparentes que estão desacelerando a mudança climática, e não contribuindo para isso.” Foi assim que um repórter descreveu a opinião vigente em uma recente matéria no Los Angeles Times. Entre os jovens de 20 e poucos anos, o desejo por “ovos livres de ovo” e maionese à base de plantas é, aparentemente, alto. Resulta que as crianças estão renunciando aos velhos hábitos ao comerem manteiga vegana e hambúrgueres com ingredientes mantidos unidos por óleo de semente de soja ou girassol, também conhecido como ácido linoléico, lipídios instáveis ​​que criam radicais livres cancerígenos quando aquecidos.

O que é incrível pois, quando eu estava na faculdade, nós nos revoltávamos contra os nossos pais ouvindo “The Clash”.
Joe Strummer (vocalista do The Clash) era vegetariano, tenho que admitir. Ele se importava com o destino de todas as coisas vivas. Mas ele também via os homens do dinheiro pelo que eles realmente eram. Eu gostaria de pensar que, se ele ainda estivesse vivo, ele teria nos advertido para que não fôssemos ingénuos quanto aos aproveitadores alinhando-se para capitalizar nossos medos. Que, ao direccionarmos nossas preocupações para os hambúrgueres, tiramos os olhos dos carros, das chaminés e dos vazamentos de gás. Ele nos diria que o que realmente precisamos, nesta hora tardia, é fazer valer cada alerta.

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