Insuficiência CardíacaA especificidade feminina

A insuficiência cardíaca é uma das principais causas de doença e morte e representa 35% do total de mortes por doença cardiovascular feminina. Pesquisas recentes indicam que as taxas de insuficiência cardíaca diminuíram, embora faltem informações sobre diferenças entre sexos, no que diz respeito à análise de resultados entre homens e mulheres.

Para entender as diferenças entre os sexos nos desfechos da insuficiência cardíaca, os investigadores analisaram dados de mais de 90.000 pacientes diagnosticados com insuficiência cardíaca em Ontário (Canadá) durante mais de 5 anos (2009 a 2014).

Do total de casos, 47 por cento eram do sexo feminino e tinham maior probabilidade de serem mulheres mais velhas e mais frágeis, de terem menores rendimentos e múltiplas doenças crónicas.

O número de novos casos de insuficiência cardíaca reduziu em 2011 e 2012, tendo começado a subir no ano seguinte. Após um ano de “follow-up“, após o diagnóstico, 16,8% (7156) de mulheres morreram em comparação com 14,9% (7138) de homens. Durante o período do estudo, as taxas de hospitalização de mulheres ultrapassaram as taxas para homens, com 98 mulheres por cada 1.000 hospitalizadas em 2013, em comparação com 91 por cada 1.000 homens.

Descobrimos que a mortalidade por insuficiência cardíaca permanece alta, especialmente em mulheres; que as internações por insuficiência cardíaca diminuíram em homens, mas aumentaram em mulheres; e que mulheres e homens tiveram comorbidades associadas diferentes“, escrevem os autores do estudo.

Mais estudos devem concentrar-se nas diferenças entre os sexos, no que diz respeito a comportamentos em prol da saúde, terapia médica e resposta à terapia, com vista a melhorar os resultados em mulheres.

Esse estudo foi publicado no Canadian Medical Association Journal.

Estudos que abordam especificamente a realidade feminina praticamente não existiam antes dos anos 50. A atitude basicamente “machista” / misógina era a da simples associação das conclusões de estudos maioritariamente feitos em homens, como aplicável a mulheres, sem ter em contas as profundas diferenças hormonais e metabólicas entre os sexos.

No que diz respeito a doença cardíaca, numerosos estudos demonstram inclusive que em mulheres, a partir da meia idade, níveis mais reduzidos de colesterol estão associados a maior incidência de doenças coronárias e maior mortalidade.

No que diz respeito a doença cardíaca, numerosos estudos demonstram inclusive que em mulheres, a partir da meia idade, níveis mais reduzidos de colesterol estão associados a maior incidência de doenças coronárias e maior mortalidade.

Mitos da Gordura e do Colesterol

Não me canso de referir o quanto é absurdo e prejudicial para a saúde pública, que se continue a de certa forma difundir os firmemente estabelecidos Mitos da Gordura e do Colesterol, que os apontam como  maléficos e prejudiciais à nossa saúde. Nada poderia estar mais longe da verdade e é sobretudo a disseminação dessas ideias erradas, que nos mantêm doentes e obesos…

Curiosamente, até aos anos cinquenta, a estratégia de tratamento de obesidade e controle de diabetes (este último até à descoberta da insulina sintética) assentava na utilização de Low Carb… a partir dos anos 50 e do pânico generalizado das doenças cardíacas, existiu, muito graças a Ancel Keys, uma associação entre o consumo de gordura e gordura saturada em particular com doenças cardíacas. Essa associação foi sobretudo feita por uma simples associação de ideias, pela “lógica de que a presença de colesterol em artérias obstruídas seria a “causa” da enfermidade e de que a ingestão de colesterol se traduziria naturalmente em aumento dos níveis de colesterol no sangue. Tal parece fazer sentido, mas na realidade o colesterol ingerido é responsável por não mais de 20% do colesterol no nosso organismo (cerca de 80% desse colesterol é produzido pela esmagadora maioria das células do nosso organismo, uma vez que o colesterol é um componente essencial das membranas celulares). O corpo mantém um controle “apertado” nos níveis de colesterol. Quando aumentamos a sua ingestão, o corpo simplesmente reduz a produção própria de colesterol, mantendo assim um eficiente equilíbrio homeostático (em experiências, alguns investigadores testaram a ingestão de níveis absurdos de colesterol na dieta, sem que tal se traduzisse em aumentos significativos no colesterol sanguíneo).

Hipótese Lipídica / “Diet-heart Hypothesis”

Insuficiência CardíacaAncel Keys, (sobre quem falarei com mais detalhe noutro artigo), propôs a sua Hipótese Lipídica, que em defesa da sua hipótese, associou níveis mais elevados de consumo de gordura na dieta de alguns países, com um nível igualmente elevado de incidência de doenças cardíacas. Ancel Keys “escolheu 7 países para “ilustrar” a sua teoria, entre 22 de que tinha dados disponíveis e de forma premeditada “ignorou” países que de todo não se “encaixavam” na sua teoria. Entre os países excluídos, salientam-se França e Suíça, (para só referir dois), países que registavam um elevado consumo de gorduras na dieta (sobretudo saturadas), mas um reduzido número de incidência de doenças cardíacas.

Assim, a partir dos anos 50, sem verdadeira fundamentação científica, apenas correlações baseadas em dados estatísticos e comparações, as directrizes Norte Americanas passaram a demonizar a gordura total, colesterol e gordura saturada em particular e a aconselhar a ingestão preferencial de hidratos de carbono complexos. Nenhuma menção foi feita no sentido da restrição de açúcar. Atrás dessas directrizes vieram os enormes incentivos / subsídios estatais à exploração de cereais.

Na mesma altura, John Yudkin (um investigador inglês, cuja carreira acabaria por ser “arruinada” pelos acérrimos defensores da Hipótese Lipídica / Low Fat) apontava o maior consumo de açúcar como provável causa de doenças cardíacas (nos países apontados por Ancel Keys para defender a sua teoria, maiores percentuais de ingestão de açúcar “encaixavam” tão bem ou melhor do que o da gordura, com a prevalência de doenças cardíacas). Ao mesmo tempo os principais lipídologistas (a investigação de lipídos / gorduras beneficiou de um enorme impulso com a invenção da Cromatografia Gasosa em 1952) dos EUA, incluindo Pete Ahrens, da Universidade Rockefeller, ao estudar padrões lípidicos e doenças cardíacas, descobriram que os triglicérídeos e HDL estariam mais fortemente correlacionados com doenças cardíacas, do que o colesterol LDL, e que as dietas com baixo teor de gordura e alto teor de hidratos de carbono, embora possam diminuir o colesterol LDL, pioram os triglicerídeos e reduzem o HDL, agravando o risco de doença coronária. Para além disso, descobriram que o próprio colesterol LDL tinha pouca correlação com doenças cardíacas. Não obstante essas descobertas, quando apresentaram esse argumento no comité do senado dos EUA, formado especificamente para se debruçar sobre o fenómeno do aumento das doenças cardíacas e a sua relação com dieta e saúde, o senador George McGovern terá dito a Ahrens:

Você quer dizer que eu posso comer toda a gordura e colesterol que eu quiser e que isso não me vai prejudicar?”

Ao que Ahrens respondeu: “Sim”.

McGovern por sua vez rematou com: “Bem, não é isso que o meu cardiologista diz.

 

Infelizmente, tanto o governo norte-americano como a American Heart Association (Associação Norte-Americana de Cardiologia) “compraram” a sugestão da hipótese lipídica ou “diet-heart hypothesis” de Ancel Keys, que aliada a convicções religiosas e vegetarianas (de que falei aqui) viriam a constituir a base das directrizes dietéticas desde então.

A partir do momento em que o governo norte-americano decidiu adoptar essas directrizes, empenhou-se em financiar estudos com vista a comprovar a base científica defendida por tais hipóteses. Assim financiaram três grandes estudos, totalizando quase um bilião de dólares em impostos, LRC-CPPT, MRFIT e Women´s Health Initiative. Todos esses estudos, bem como outros de menores dimensões, falharam no seu objectivo. Nenhum apresentou evidências convincentes de benefício de uma dieta Low Fat (redução de gordura na dieta). O maior estudo, o Women´s Health Initiative (Iniciativa de Saúde das Mulheres), acompanhou 50.000 mulheres durante 8 anos, em que metade seguiu uma dieta baixa em colesterol e baixo teor de gordura. Após 8 anos, não houve benefício em nenhum parâmetro de peso, doença cardíaca ou cancro. No entanto, o governo e a AHA – American Heart Association, mantiveram-se inabaláveis na sua crença.

 

Em resumo, a razão pela qual as dietas que reduzem o colesterol não conseguem prevenir, ou diminuir o risco de doenças cardíacas é porque na verdade o colesterol total nada tem a ver com a doença cardíaca. Numerosos estudos não conseguiram mostrar uma correlação entre o colesterol total ou mesmo com o LDL total e doenças cardíacas. de facto, em mulheres com mais de 50 anos, todos os estudos mostram que quanto maior o colesterol, mais tempo elas vivem. Um grande estudo feito na UCLA descobriu que o LDL médio de pacientes com ataque cardíaco agudo era inferior a 100 e um terço era inferior a 70. A média nacional de colesterol LDL na época era de 140.

As Diretrizes Dietéticas dos EUA, até 2015, recomendavam que os adultos mantivessem a ingestão total de gordura entre 20 e 35% das calorias ingeridas e para as gorduras saturadas, menos de 10% das calorias, devendo a maioria das gorduras provenientes de fontes de gorduras polinsaturadas e monoinsaturadas, como peixes, nozes e e óleos vegetais. Para pessoas com doenças cardíacas ou com alto risco de doença cardíaca, os limites para gorduras saturadas poderiam ser reduzidos ainda mais. A partir de 2015, sem grande destaque para essa alteração, foram retirados os limites à recomendação da ingestão de gorduras

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