O “MONSTRO” DA PRÉ MENOPAUSA / MENOPAUSA…Parte 2

FOGACHOS / AFRONTAMENTOS / ONDAS DE CALOR…

Sim querida, tens razão… o ar condicionado está outra vez avariado, vou já tratar disso… 

Ou como utilizar uma série de palavras cheias de consoantes e sílabas complicadas para vos adormecer…

 

Menopausa e ondas de calor (também conhecidas como afrontamentos ou fogachos) estão naturalmente associados. Quase toda mulher que passa pela menopausa, sobretudo o período pós-menopausa (ou climatério) experimenta ondas de calor em alguns momentos. Muitas mulheres sofrem com esses sintomas regularmente.

 

Um esclarecimento adicional… O período que se segue após a cessação da menstruação é designado de climatério. Apesar de ser muito comum ouvirmos dizer que uma mulher se encontra na menopausa, o mais correto seria dizer que ela teve a menopausa e agora se encontra no climatério.

As ondas de calor não se resumem a sensação de calor. Podem ser extraordinariamente desconfortáveis. Podem perturbar vida social. E talvez o pior de tudo, é que podem pôr em causa uma boa noite de sono.

Se pesquisarmos na internet por afrontamentos ou ondas de calor, vamos encontrar centenas de conselhos e “mesinhas”, sendo a maioria vaga e inútil, não abordando realmente a raiz do “problema”.

Se empregarmos um olhar atento à fisiologia subjacente às ondas de calor, podemos usar o cérebro, a dieta e algumas mudanças de estilo de vida para gerir a menopausa e ondas de calor de forma bem mais “confortável”.

 

Menopausa e ondas de calor: o que são ondas de calor?

As ondas de calor são um surto desconfortável de uma sensação de “calor intenso” que pode ocorrer em momentos aleatórios, sendo conhecidas por ocorrerem cada vez mais durante a perimenopausa e a menopausa, em quase 75% das mulheres.

Existe calor intenso, por vezes rubor, sudação, e eventualmente uma sensação de formigamento no corpo. Por vezes, ocorrem durante a noite, podendo a mulher acordar desconfortáveis e suadas (mas sempre lindas, claro) ;).

Costuma começar como uma sensação súbita de calor localizada na face e na parte superior do tórax, tornando-se rapidamente generalizada. Essa onda de calor ocorre por uma má interpretação da temperatura corporal real pelo hipotálamo, região do sistema nervoso central que age como termostato. No geral existe uma sensação de “muito quente”, mas a sua temperatura real mantém-se normal, ao redor dos 36,5ºC.

A sensação de calor dura geralmente entre dois e quatro minutos e está frequentemente associada a intensa transpiração e vermelhidão da pele. Como o organismo “pensa” que o corpo está muito quente, ocorre uma inapropriada dilatação dos vasos da pele, o que leva à vermelhidão e à transpiração.

Com a vasodilatação, sudorese e consequente perda de calor, há uma rápida queda da temperatura corporal, causando uma leve hipotermia. A partir desse momento os sintomas começam a dissipar-se e surgem os calafrios, um mecanismo usado pelo corpo para gerar calor, numa tentativa de restaurar a temperatura habitual do organismo.

Em algumas mulheres as ondas de calor surgem várias vezes por dia, podendo também aparecer enquanto dormem. Os calores noturnos atrapalham o sono e podem levar à insônia. Se a mulher também tiver problemas como ansiedade ou depressão, mais comuns na idade da menopausa, podem surgir distúrbios importantes do sono.

A maioria dos artigos disponíveis na internet sobre a menopausa e ondas de calor atribuem as ondas de calor como resultado da “mudança nos níveis hormonais”. Não deixando de ser verdadeira essa afirmação, a mesma é deveras limitadora, pois existem mais factores associados.

Da mesma forma a maioria desses mesmos artigos, apontam as terapias de reposição hormonal (estrogénio/ progesterona) como possivelmente a melhor solução para os “afrontamentos”. A maioria desses artigos são datados, pouco actualizados, pois em informação mais recente, em meios médico-científicos, essa utilidade / eficiência é posta em causa, sobretudo pela necessidade de essas terapias terem necessariamente um curto período de intervenção, pelas consequências da sua relação com cancros da mama e útero.

 

Mas no fundo o que provoca essas sensações de calor?

Conhecemos o mecanismo, mas a causa exata das ondas de calor não está ainda claramente identificada pela ciência.

Ao pesquisar um pouco mais a fundo na literatura, encontramos algumas “pistas” interessantes:

Sabemos que as ondas de calor são o resultado de mudanças bruscas na dilatação dos vasos sanguíneos. Por vezes são sentidos apenas na zona da cabeça (juntamente com outros fatores)e podem causar dores de cabeça.

Sabemos que a onda de calor ocorre quando vasos sanguíneos, em todo o corpo se expandem de forma abrupta e num curto espaço de tempo.

Sabemos ainda que os vasos sanguíneos se contraem e se dilatam no corpo constantemente. Isso acontece de forma diferente na menopausa, no entanto, porque o estrogênio desempenha um papel fundamental no controle dos vasos sanguíneos. Quando os níveis de estrogênio estão baixos, os vasos sanguíneos tornam-se um pouco mais sensíveis a outros fatores que os podem influenciar. Um desses fatores, e que se acredita possa ser o principal, é a libertação de adrenalina. Quando a adrenalina é libertada em um período com níveis consistentemente baixos de estrogênio, os vasos sanguíneos dilatam-se excessivamente e rapidamente – mais do que o normal, causando uma onda de calor. A libertação de adrenalina pode ser desencadeada pela cafeína, pela privação do sono, pelas flutuações do açúcar no sangue, pela inflamação ou pelo stress, para citar apenas alguns exemplos.

 

 

Menopausa e ondas de calor: Estrogênio e vasos sanguíneos

Os receptores de estrogênio são encontrados em todo o corpo em tecidos nos quais possivelmente nunca pensariam encontrar estrogênio, tal como a estrutura do esqueleto, o intestino, a pele e, muito importante, os próprios vasos sanguíneos. O estrogênio ajuda a dilatar os vasos sanguíneos.

E como o faz? Através da estimulação da síntese do óxido nítrico (PS: assim como reduz as concentrações de LDL!) que causa a dilatação coronária.

Assim, descobrimos que o estrogênio ajuda a manter vasos sanguíneos flexíveis e fluidos. Em mulheres em idade reprodutiva com níveis de estrogênio relativamente estáveis, os vasos sanguíneos permanecem “em forma” e em situação de “relax” constantemente. Em mulheres que estão a passar pela menopausa, os vasos sanguíneos tornam-se mais restritos em geral, e mais sensíveis a vasodilatadores e outros estimulantes (como a cafeína, álcool, pimenta…).

Também se descobriu que o estrogênio tem um efeito geral de arrefecimento no corpo feminino. O estrogênio reduz o “ponto de ajuste” da temperatura, em parte porque tem uma tendência a aumentar o fluxo sanguíneo para a pele e diminui a produção de calor. Podemos ver esse efeito no ciclo menstrual normal – a temperatura do corpo aumenta durante a ovulação e os altos períodos de progesterona e diminui os períodos altos de estrogênio. Ambos esses factores ajudam a manter a pele relativamente fria.

 

Estrogénio, outras hormonas e Ondas de Calor

O estrogênio também pode afetar as ondas de calor através do seu efeito sobre outras hormonas. Quando os níveis de estrogênio caem, uma das primeiras respostas do corpo é segregar as hormonas LH e FSH. Estas são hormonas hipofisárias que ajudam a desencadear a ovulação. Quando os níveis dessas hormonas aumentam, a temperatura do corpo também aumenta.

Assim, se o estrogênio cai rápidamente em dias aleatórios durante a perimenopausa ou a menopausa, uma “inundação” de LH ou FSH pode causar a elevação das temperaturas do corpo. Isso provavelmente não acontece em uma base regular para a maioria das mulheres, mas pode ser ocasionalmente um factor.

 

Estrogênio, neurotransmissores e ondas de calor

O estrogênio provoca ainda ondas de calor indiretamente através de outro mecanismo – o seu efeito sobre os neurotransmissores: O estrogênio influencia os níveis de epinefrina e norepinefrina no cérebro. Tende a aumentá-los.

Curiosamente também tende a aumentar os níveis de serotonina e dopamina. (este facto em particular pode explicar parte do motivo pelo qual certos antidepressivos demonstraram ter um efeito positivo na gestão das ondas de calor). Norepinefrina e epinefrina (adrenalina) são vasodilatadores. Elas dilatam os vasos sanguíneos. Quando mantidas a um nível consistente, o seu efeito nos vasos sanguíneos não é muito expressivo (não é extremo), mas é constante. Isso ajuda a manter os vasos sanguíneos abertos e fluindo harmoniosamente em mulheres em idade reprodutiva. No entanto, quando os níveis de estrogênio caem durante a menopausa, os níveis de epinefrina e norepinefrina também podem cair para um nível basal mais baixo – deixando os vasos sanguíneos mais susceptíveis a picos de adrenalina e outros estimulantes. Com o tempo, os vasos sanguíneos parecem se ajustar aos níveis basais mais baixos de estrogênio e, possivelmente, também à serotonina, à dopamina e à adrenalina. No entanto, a perimenopausa e a menopausa exigem “paciência” enquanto o corpo se ajusta.

 

Progesterona e ondas de calor

Durante várias décadas, o estrogênio foi visto como a cura de todos os afrontamentos. No fundo foi durante muito tempo a única hormona estudada para aplicação no controle das ondas de calor, mesmo sabendo que a progesterona é igualmente um factor crítico na menopausa e na saúde das mulheres em geral…

TRE / Terapia de Reposição de Estrogênio tem sido demonstrada como eficaz para ajudar com afrontamentos e outros sintomas de menopausa. No entanto é amplamente posta em causa devido à sua questionável relação com cancros do sexo feminino, como cancro da mama e câncer endometrial. Ainda hoje a comunidade médica não chegou a consenso sobre se efectivamente representa ou não esses riscos.

Felizmente existem outras soluções. Nas últimas duas décadas, investigadores analisaram a progesterona em relação com as ondas de calor e descobriram que a suplementação de progesterona só por si pode ajudar a atenuá-las. Muitas mulheres tomam ambos os suplementos (de estrogênio e progesterona), o que parece ser a maneira mais eficiente de ajudar a aliviar os sintomas, mas a progesterona de forma isolada parece ter efeitos atenuadores.

 

A questão, no entanto, permanece quanto aos porquês…

A progesterona não possui os mesmos efeitos cardioprotetores que o estrogênio. Estrogênio fortalece e dilata os vasos sanguíneos. A progesterona dilata os vasos sanguíneos, mas também pode constringi-los.

Toda essa fisiologia é complicada (se quiserem ler mais sobre isso, têm mais este artigo).

 

Aparentemente a suplementação de progesterona simplesmente ajuda a manter tudo mais estável. Se a temperatura do corpo for levemente aumentada por ação da progesterona, então não acontecerá uma onda de calor… já existe calor interno! Além disso, a suplementação de progesterona ajuda a estabilizar os níveis de estrogênio, porque o estrogênio e a progesterona actuam como contrapesos entre si na corrente sanguínea. Assim, mesmo que os níveis de estrogênio não sejam altos durante a menopausa, eles podem pelo menos ser mais estáveis. A progesterona também pode ajudar a controlar a produção de hormonas do stress, epinefrina e norepinefrina, o que impediria que os vasos sanguíneos se dilatassem e se contraíssem de forma tão abrupta, causando assim ocorrência de ondas de calor. E claro, a suplementação que se demonstrou como mais eficaz para gerir todos os sintomas da menopausa (incluindo ondas de calor), foi a de estrogênio e progesterona combinadas… Não esquecer no entanto que os efeitos de saúde a longo prazo pela TRH contínua, são altamente questionáveis.

 

Tendo em conta toda a informação acima descrita, o cenário da “cura” através das Terapias de Reposição Hormonal, parecem ser as mais eficientes (independentemente dos riscos aparentes para a incidência de cancros no feminino. Em parte é verdade, mas só em parte…

 

Fazendo um resumo da informação até aqui:

  1. A dilatação dos vasos sanguíneos é provavelmente o principal culpado das ondas de calor;
  2. Baixos níveis de estrogênio e quedas de estrogênio podem causar ondas de calor devido ao seu efeito sobre os vasos sanguíneos.
  3. “Picos” de atividade nervosa simpática (estímulo de “luta ou fuga”) e hormonas associadas ao stress como cortisol e adrenalina podem causar ondas de calor;
  4. Demonstrou-se que as ondas de calor, melhoram com Terapia de Reposição de Estrogênio;
  5. Demonstrou-se que as ondas de calor melhoram com Terapia de Substituição de Progesterona;
  6. As ondas de calor demonstraram ser mais mitigadas com Terapia de Reposição de Estrogênio e Progesterona.

Existem no entanto outras “soluções” possíveis, ainda mais enquadradas num estilo de vida de alimentação Paleo / Ancestral / Alimentos Verdadeiros e não inflamatórios… irei abordá-las na parte 3 deste artigo tripartido… 😊

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