O nosso metabolismo é essencialmente controlado por hormonas. Praticamente todas as funções do nosso organismo dependem de um equilíbrio hormonal e quando este não existe, surgem os “problemas”. Hormonas como Insulina, Cortisol, Adrenalina, Testosterona, Estrogénio, Progesterona,  Leptina, Grelina, Tiroxina (T4) e Tri-iodotironina (T3) (as hormonas da Tiroide). As hormonas são assim substâncias químicas essenciais, produzidas por glândulas do sistema endócrino ou por neurónios especializados. Elas estimulam ou inibem o funcionamento de órgãos, interferem na regulação de funções como temperatura corporal,  humor, sono, sexualidade, crescimento, etc…

Variadíssimos estudos apontam as razões da obesidade não para o simples excesso de ingestão calórica, mas sim para desequilíbrios hormonais. Já há algumas décadas, estudos de endocrinologistas apontavam para esse facto, mas foram simplesmente desacreditados e “enterrados”, numa época em que se acreditava piamente em teorias assentes em simples défice calórico (comer menos e mexer mais) e se privilegiava a contagem de calorias e exercício físico como estratégia ideal.

As hormonas insulina e cortisol são as principais responsáveis pelo fenómeno da obesidade. Há muitas décadas que sabemos que a maior e menor produção de insulina traduz-se proporcionalmente em obesidade. Pessoas com insulinomas (raros tumores que segregam enorme quantidades de insulina) sofrem inevitavelmente de obesidade. Pacientes com diabetes tipo 1 (em que o Pâncreas não segrega insulina) têm como um dos principais sintomas (para além de muita sede), uma magreza fora do normal. Até à invenção da insulina sintética, era muito difícil, senão impossível, engordar crianças ou adultos com Diabetes tipo 1 (com maiores doses de insulina, já temos casos de obesidade com essa patologia, sendo que entre alguns desses pacientes, existe uma prática muito perigosa, de propositadamente reduzir doses de insulina com objectivo de emagrecimento. Tal é efectivamente extremamente perigoso, se feito com a prioridade nesse objectivo e não como complemento de uma dieta mais saudável, com redução de carbo-hidratos.

As hormonas são produzidas em maior ou menor quantidade por estímulos externos ou em períodos definidos. A melatonina é produzida ao final do dia, sendo sensível à ausência de estímulos luminosos e prepara-nos para o descanso, da mesma forma o cortisol é progressivamente reduzido ao longo dia, também nos “conduzindo” ao descanso. As hormonas associadas ao crescimento, sobretudo a GH e a IGF-1 são produzidas geralmente durante o sono profundo. O nosso metabolismo é uma máquina fantástica e a regulação hormonal é um dos maiores protagonistas.

aqui referi a importância da estratégia de optimização do timing das refeições (sobretudo PA) em relação à combinação da acção da insulina e cortisol. Referi, talve z demasiado superficialmente que o cortisol amplia a acção da insulina e que seria uma das razões pelos quais estimular a insulina cedo, pela manhã, seria especialmente contraproducente (período em que o cortisol existe em maior quantidade). Pela maesma razão, contra o que diz a sabedoria popular, é mais vantajosa a utilização de bons hidratos ao final do dia, quando temos o cortisol muito mais reduzido, e vão igualmente estimular a produção de melatonina / seratonina. Sobre a relação da insulina e cortisol com a obesidade, talvez seja no entanto útil, explicar um pouco mais os mecanismos e fenómenos envolvidos…

Simplificando a acção da Insulina (porque sobre esta já temos falado muitas vezes), lembrar apenas que esta é essencialmente responsável pela obesidade por dois factores:

  • Inibe a utilização de gordura como “combustível”.

Sempre que existe no nosso “sistema” insulina em maior quantidade (a sua maior produção está mais ligada à ingestão de carboidratos e alimentos processados, mas não exclusivamente), a metabolização de gordura (seja a corporal seja a ingerida) como energia é interrompida (assumindo que até já estão adaptados a utilizar gordura para esse fim;

  • Promove o armazenamento da glicose em excesso, como gordura.

A acção da insulina é retirar a glicose do sangue (o único outro “tóxico” que tem maior prioridade de filtragem e metabolização é o álcool) elevá-la ao fígado para ser Processada. No fígado a glicose é convertida em glicogênio e armazenada quer no fígado, quer nos músculos (existe no entanto uma quantidade deveras limitada). Quando é atingida a capacidade de armazenamento (a tal limitada) a glicose é convertida em gordura através de um processo designado por “de novo lipogênese”, para que seja possível armazenar esse excedente na única forma para a qual não existe limite (exactamente, a gordura corporal).

Cortisol

A hormona cortisol (vulgarmente chamada de hormona do stress), prepara-nos para “a acção”. Em situações de maior stress alia-se à adrenalina para produzir reacções de “fight ou flight” (ou lutas ou foges). Como tantos outros exemplos de adaptação evolutiva (recordo que a evolução é um processo gradual, de milhares e não de centenas ou dezenas de anos), a produção e acção de cortisol era a “ideal” para as situações pontuais de stress que afligiam os nossos distantes antepassados. Ameaçados por um perigo (perseguidos por feras ou a perseguir uma presa), reagiam e a acção desenrolava-se por um relativamente curto espaço de tempo (ou sobrevivia ou não). O cortisol e adrenalina eram segregados nesse momento e depois dissipavam-se naturalmente quando o estímulo desaparecia (ou quando o nosso antepassado era devorado, sendo que o stress prejudica o sabor… 😛 ).

Nos tempos modernos estamos sujeitos a stress crónico, quase permanente. É o stress do trânsito, escravos de horários e compromissos profissionais, os stress associados à auto-imposição de objectivos ambiciosos, de realização pessoal ou profissional, os stresses maritais ou familiares…postos perante esse cenário, por vezes invejo os nossos ancestrais, simplesmente perseguidos por dentes de sabre ou gigantes ursos pardos, sabem lá o que é ser perseguidos por uma sogra emancipada (não a minha que é simplesmente fantástica…) 😉

Todas essas pressões levam à manutenção de cortisol em níveis mais elevados. Outras situações como sono deficiente ou de menor qualidade, também agravam esta questão.

E porque é que o cortisol crônico é prejudicial à nossa saúde, sobretudo pelo seu efeito na obesidade? Qual o seu mecanismo? Para simplificar vamos dizer que tem uma acção aparentemente antagônica à insulina, mas que lamentavelmente, em situações de prolongada elevação no nosso organismo, conduz aos mesmos efeitos.

Idealmente, na situação descrita para os nossos ancestrais, o cortisol actua provocando a síntese de glicose, através da glicoconeogenese (já falei várias vezes sobre isso). Ao contrário da Insulina, que promove a transformação e armazenamento da glicose (infelizmente também na forma de gordura), o cortisol promove a criação de glicose através da conversão sobretudo de proteína (massa magra). Para os nossos ancestrais isso correspondia a uma utilização imediata pelos músculos, através de esforços físicos. A glicose era gasta e passado o perigo o cortisol descia a níveis “normais”. Nos tempos modernos o stress não é físico, mas sobretudo psicológico e mantêm-se essencialmente constante ao longo dos nossos dias. Não existe um escape físico para “gastar” a glicose produzida. O que ocorre, isso sim, é a maior produção de insulina para lidar com essa glicose extra. Resultado da insulina elevada? Progressiva resistência insulinica e obesidade.

A relação entre o cortisol e resistência insulínica e obesidade pode ser observada em pacientes com doença de Cushing’s, em que uma produção anormal de cortisol está directamente associada com esses resultados. Pacientes com doença de Cushing’s mantêm níveis elevados de produção de insulina até 5 anos depois da sua cura. A utilização de cortisol sintético em medicamentos como a Prednisona e outros glucocorticóides, está comprovada como associada a aumento de peso como efeito secundário.

A insulina e cortisol estão intimamente ligadas ao metabolismo de carboidratos.

 

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4 COMENTÁRIOS

  1. Já tinha saudades, Eduardo!
    Os seus “relatos” dão que pensar…
    Obrigada pela busca incessante do esclarecimento sobre temas que por vezes, são tão ocultos como o além 😉

    • Grato Paula…
      Mas até tenho produzido e partilhado alguns artigos…Depois deste já “desanquei” o Índice Glicêmico e os fundamentalismos frequentemente associados ao mesmo… Já juntou esse “cromo” à colecção?!

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