Recentemente têm surgido algumas notícias polêmicas sobre questões nutricionais (o tema está na moda e interessa a um crescente número de pessoas…).

Chega o Verão, o mês de Agosto é tradicionalmente mais escasso de notícias (fora infelizmente as dos incêndios e a comunicação social tem mais tempo livre pra “procurar notícias”…

 

A título de exemplo foi recentemente divulgada uma notícia em que alegadamente um estudo indicaria que Dietas Low Carb (uma das publicações referia mesmo a “Dieta Paleolitica” que nem sequer é necessariamente Low Carb) reduziriam a esperança média de vida… o destaque e o nível de absurdo foi tal, que mesmo o Dr. Souto (brilhante médico brasileiro, principal promotor do Low Carb / alimentos verdadeiros no Brasil) que se encontra de férias em Itália, quebrou a sua promessa de não escrever em férias, para refutar essas “manchetes”. Aqui fica o post dele (extraordinário, como sempre…

 

Mais recentemente ainda, ontem e hoje, está a ser divulgada uma notícia em que o Óleo de Coco è apontado como um “veneno”…

 

A grande questão assenta em dois pilares:

A necessidade de sites, blogs, revistas e jornais, sobretudo os com menos base científica e (menos escrúpulos), gerarem “cliques”, gostos e comentários. A velha premissa que “…não há má publicidade, apenas publicidade” é o ponto chave!

 

Por outro lado, da parte dos “investigadores / cientistas”, perceber que a maior parte dos sistemas académicos, com especial destaque para os Estados Unidos, de onde emana a maior parte das publicações do gênero, é fortemente assente na necessidade de publicar artigos. Como dizem, no meio académico é “publish or perish”, ou seja, ou é “publicar ou falecer / desaparecer”. Os académicos, para obterem “tenure” (estabilidade / efectividade nas Universidades) ou obterem bolsas e financiamentos para investigação, têm que ter exposição, têm de publicar artigos, quantos mais melhor! Nem sempre isso coincide com rigor e qualidade. Pegarem em estudos antigos, fazerem uma meta-análise (já publiquei sobre a distinção dos vários tipos de estudo aqui) ou simplesmente uma nova abordagem e já se publica algo…É uma pressão muito grande para publicar, como se refere neste artigo publicado no NCBI (National Center for Biotechnology Information) e que cita várias fontes e artigos.

 

Importante também, para além de distinguir a qualidade dos estudos e da metodologias que estes utilizaram (estudos observacionais servem para levantar hipóteses, mas não “provam” causalidade) perceber a distinção entre uma publicação num jornal ou revista científica “peer-review” e as publicadas noutro tipo de publicações.

 

Uma publicação “peer-review” é aquela em que o artigo proposto a publicação é primeiro submetido a revisão (de forma anónima) por vários outros investigadores da área. Quem faz a revisão não sabe a quem pertence o artigo / estudo e o autor não sabe quem vai rever o seu trabalho. É chamada de “revisão pelos pares”. Estes vão analisar o mesmo à procura de falhas, de metodologia, de estratégias de intervenção e de análise, vão rever cálculos, fazer críticas e observações. O que confere uma muito maior credibilidade.

 

É vulgar que uma publicação dessas possa demorar 10 meses ou mais a ser publicada, devido a todo esse processo. Exemplos de publicações sérias “peer-review” são o JAMA (Journal of the American Medical Association), https://jamanetwork.com/journals/jama ou o BMJ British Medical Journal https://www.bmj.com/  

 

Infelizmente existem publicações pseudo científicas, em que se for paga a quantia estipulada (média de 600 euros), o artigo é publicado sem revisão.

 

Mesmo o PubMed um dos mais conhecidos motores de busca para pesquisa de artigos científicos, muito utilizados por investigadores, médicos e jornalistas, indexa também publicações não “peer-review”. Se quem pesquisa não sabe analisar bem o estudo e a revisão para destinguir credibilidade, pode dar mau resultado!

 

Em “medias” mais “sérios”, jornais e revistas generalistas, mas com maior preocupação com a realidade dos factos, existem jornalistas com uma forte componente científica, que escrevem sobre esses factos e fazem excelentes trabalhos de investigação jornalística, antes de publicarem notícias. è o caso de Gary Taubes e de Nina Teicholz , que se têm destacado e ajudado a revolucionar o “mundo da informação nutricional”.

 

Infelizmente existem muitas outras publicações que não têm esse cuidado e que, pelo contrário, o que lhes interessa é criar “manchetes polémicas”, com títulos sensacionalistas (muitas vezes que depois mal se refletem nas conclusões dos estudos), para gerar controvérsia e divulgar mais e mais as notícias, que depois são partilhadas e viralizadas pelas redes sociais.

 

Deixo aqui dois casos muito interessantes:

“Recentemente, um grupo de pesquisadores inventou uma falsa académica, a Dra. Anna O. Szust. A palavra ‘Szust’ quer dizer ‘burlão’, em polaco. A Dra Szust enviou o seu  currículo a publicações acadêmicas legítimas e menos legítimas, solicitando uma colocação como editora. O currículo incluía publicações e diplomas completamente falsos, assim como eram falsos os nomes das editoras de livros para os quais ela afirmava ter contribuído. As publicações legítimas rejeitaram imediatamente a sua candidatura. 48 das 360 publicações menos legítimas, aceitaram-na como editora. Quatro delas chegaram ao ponto de lhe oferecer o cargo de editora-chefe. Uma das publicações enviou-lhe um email que basicamente referia “…é uma honra para nós adicionar o seu nome ao staff da revista, como editora chefe, sem quaisquer compromissos / responsabilidades.’

 

48 publicações, revistas, jornais online da área da saúde e ciência nutricional, aceitaram uma candidatura a editora chefe (ou editora que seja), completamente falso em todos os aspectos!

 

Em 2015, um jornalista, John Bohannon, foi contratado por uma TV alemã para demonstrar, de forma clara, como má ciência nutricional facilmente produz “manchetes”. Para tal resolveu “inventar” um estudo, como teste à fiabilidade e idoneidade das práticas de revisão jornalística, nos campos da ciência nutricional. O estudo foi inicialmente  “publicado” no jornal Archives of Medicine durante algumas horas (por engano) e rapidamente foi rejeitado. Não obstante isso, foi ainda notícia em 20 países, em meia dúzia de idiomas.

Vejam Who’s Afraid of Peer Review? ou ainda na Wikipedia | Who’s Afraid of Peer Review? que agrega todas as fontes…

O líder do estudo, o John Bohannon é um jornalista científico. Mas nem sequer é jornalista da área da saúde. Usou um nome falso, Johannes Bohannon, e o Instituto que refere  Institute of Diet and Health (instituto de Dieta e Saúde) nem sequer existe. Era apenas um site que o autor inventou. Uma simples pesquisa no Google poderia ter verificado esses factos.

Mais tarde ele publicou um artigo no seu blog, explicando o seguinte. “Eu enganei milhões de pessoas fazendo essas pessoas acreditarem que chocolate emagrece.

“Esse foi, na verdade, um estudo típico no mundo da ciência nutricional. O que significa que foi uma péssima prática científica. Os resultados não têm sentido nenhum e os benefícios à saúde que a mídia espalhou para milhões de pessoas ao redor do mundo não têm qualquer  fundamento.”

A revista científica na qual o estudo foi publicado era uma falsa publicação peer review, daquelas que aceitam qualquer trabalho mediante pagamento. Isso também é fácil de verificar. O estudo foi realmente feito, mas de forma manipulada:

  • 15 voluntários, distribuídos em 3 grupos, ou seja, 5 pessoas em cada grupo.
  • Ambos os grupos eram Low Carb, mais um grupo controle.
  • Um grupo low carb e um low carb com chocolate…
  • Os dois grupos Low Carb perderam um pouco de peso (3 quilos, o esperado…).

Mas os autores testaram 18 variáveis diferentes. Isso está no estudo… E por que eles fizeram isso? Porque se testarmos 18 diferentes variáveis, em qualquer estudo, vamos ter uma elevada probabilidade de encontrar alguma relação estatisticamente significativa, por puro acaso.

De fato, o chocolate não parecia estar influenciando rigorosamente nada, mas graças ao truque de apenas 5 voluntários por grupo, e graças às 18 variáveis medidas, alguma delas estava fadada a (por puro acaso) – demonstrar alguma diferença estatística.

Então, resulta que o grupo do chocolate perdeu peso mais rápido. Cerca de 10% mais rápido. 10% é uma diferença em termos relativos – um jornalista científico saberia calcular os números absolutos. Em 3 Kg, isso significaria 300 gramas que teriam sido perdidos mais rapidamente. Uma variação de 300g em um grupo de 5 pessoas… Essa é a diferença entre antes e depois de ir ao WC. 🙂

Assim podemos ter as seguintes conclusões, no artigo publicado sobre esse “estudo” “De acordo com uma pesquisa inédita, realizada por cientistas alemães e publicado no periódico International Archives of Medicine, comer chocolate pode ajudar a reduzir o perímetro abdominal, diminuir os níveis de colesterol e contribuir para uma melhoria da qualidade do sono.” Tudo verdades hábilmente manipuladas!

 

PS: Essa publicação de 2015, amplamente difundida como fraude, voltou a ser citada (como real) em Julho de 2015, numa publicação brasileira… 😉

 

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