Como já tenho referido no passado, a nutrição é um meio científico especialmente vulnerável à influência de estudos e ensaios com menos validade científica. A história da nutrição está repleta de “verdades” tidas como absolutas, que na verdade não são mais do que “hipóteses” ou especulações baseadas em opiniões formuladas com base em pouco mais do que inquéritos e análise / manipulação estatística. Está também, infelizmente, amplamente “poluída” pela manipulação política e empresarial das grandes multinacionais do sector alimentar e farmacêutico, que não hesitam em influenciar e distorcer estudos e dados para publicação, de acordo com os seus interesses…

Exemplos são o mito da Gordura como nutriente a evitar, alegadamente responsável por obesidade, subida de colesterol e consequente influência negativa em saúde cardiovascular, ou o mito das vantagens do uso de estatinas  (que como sabem dificilmente tem hoje em dia qualquer credibilidade, face a ensaios clínicos sérios e investigadores empenhados em alterar essa falsa imagem).

Quando refiro, em vários outros artigos, a necessidade de saber distinguir a legitimidade dos vários tipos de estudo e saber “separar o trigo do joio”, naturalmente esses princípios são válidos, quer em se tratando de estudos que defendem algo em que não acredito e que não recomendo, como estudos favoráveis a temáticas e estratégias que entendo como válidas e vantajosas. Se estudos prospectivos e epidemiológicos não são válidos para “provar” causalidade quando contrariam o que defendo, não passam magicamente a ser aceitáveis quando suportam as ideias que divulgo. 😉 A isso chama-se coerência… 😉

Alimentos Orgânicos & Cancro

Então porquê sequer promover e referir esse tipo de estudo?

Pondo de parte razões puramente “interesseiras” de usar / desenhar / manipular estudos para promover produtos, alimentos ou medicamentos, estudos com essas características, se conduzidos honestamente e sem uma “agenda”, podem ser úteis. São estudos que conseguem abranger uma enorme “fatia” de população com uma fracção do custo de um ensaio clínico com grupos de controlo aleatórios. Inquéritos nutricionais e questionários semelhantes não têm de ser feitos por técnicos de saúde. Podem (e frequentemente são) ser criados formulários para resposta fácil e não “acompanhada”, de autopreenchimento e submetido facilmente a populações específicas (com as vantagens, mas também as possíveis distorções e consequências da especificidade).

Se tivermos em conta as limitações desse tipo de estudo e se não forem usados para distorcer a realidade ou para dizer que “comprovam” uma teoria (a sua metodologia não é no sentido da “prova”, mas sim para apurar “possíveis” correlações e levantar hipóteses, formular novas teorias), podem ser úteis, podem fornecer mais dados para “afinar” teorias, que por sua vez  necessitam outro tipo de estudos / ensaios clínicos, para serem então comprovadas…

Nesse sentido e com as devidas reservas… 😉

Orgânicos

Comer alimentos orgânicos com frequência  pode diminuir o risco geral de desenvolver cancro…

…segundo um estudo publicado na revista JAMA Internal Medicine.

Especificamente, o estudo das dietas de quase 70.000 adultos franceses, mostra que aqueles que comem alimentos orgânicos são mais propensos a afastar o linfoma não-Hodgkin e o cancro cancro de mama na pós-menopausa, em comparação com aqueles que raramente, ou nunca comem alimentos orgânicos.

Os participantes do estudo foram acompanhados durante cerca de cinco anos e divididos em três grupos: aqueles que nunca comiam alimentos orgânicos, aqueles que os comiam ocasionalmente e os que comiam alimentos orgânicos muito frequentemente.

O que os investigadores descobriram, foi que em pacientes que comeram principalmente alimentos orgânicos, havia menos casos de cancro – especificamente cancro de mama pós-menopausa e linfoma.

Deve-se ter em mente que uma dieta nutricionalmente saudável (rica em frutas e vegetais etc.), seja qual for o sistema de cultivo (orgânico ou convencional), assim como um alto nível de actividade física são importantes factores de proteção, amplamente documentados como sendo eficazes contra certos tipos de cancro e outras doenças

…refere a principal autora do estudo, Julia Baudry, do Instituto Francês de Pesquisa Médica e de Saúde INSERM em Paris, em declarações à Agência Reuters.

No geral, os indivíduos que comiam sobretudo alimentos orgânicos, foram 25 por cento menos propensos a desenvolver qualquer tipo de cancro, são as conclusões deste estudo. Os riscos de cancro de pele e de mama reduziram em um terço.

Além de uma redução no cancro de mama pós-menopausa e linfomas, os investigadores descobriram que aqueles que comiam alimentos orgânicos também tinham menos cancros de próstata, cancro de pele e cancro colorretal.

Orgânicos & Estudos

Se os resultados forem confirmados, os investigadores do JAMA sugerem que a promoção do consumo de alimentos orgânicos na população em geral, poderia ser uma promissora estratégia preventiva contra o cancro.

Dr. Dale Shepard, um médico da Cleveland Clinic que não fez parte da equipa de investigadores, salienta que pessoas que comem alimentos orgânicos, também têm tendência a consumir dietas mais saudáveis ​​e a exercitar-se mais, sendo estas características igualmente associadas à redução do risco de cancro (os tais factores de confusão que tenho referido em outros artigos e especialmente difíceis de controlar em estudos prospectivos e/ou baseados em questionários).  

O Dr Shepard afirmou ainda que comer uma dieta considerada “saudável para o coração”, seja orgânica ou não, será naturalmente benéfica para a redução de risco de todos os tipos de cancro.

Em geral, sabemos que dietas mais saudáveis ​​são melhores para nós, quando se trata de redução de risco de cancro”.” A qualquer momento as pessoas podem incorporar mais frutas e verduras e minimizar os alimentos processados, e dessa forma reduzir os factores de risco…

…disse este em uma entrevista na Cleveland Clinic.

Shepard disse ainda que mais pesquisas precisam ser feitas para analisar o papel que os alimentos orgânicos podem desempenhar na prevenção do cancro. Enquanto estas não são feitas, é importante que as pessoas se concentrem nos fatores de risco que estão sob o seu controle e que uma “dieta saudável” é algo que todos podem fazer.

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